A Academia Liszt e o Método Kodály | Terras Sem Sombra

Dez anos depois, o festival Terras Sem Sombra regressou ao concelho de Mértola durante os dias 14 e 15 de abril. Numa parceria entre a Câmara Municipal da cidade e a Embaixada da Hungria, o quarto espetáculo retratou três séculos da vida musical do velho continente europeu. Sob o mote Aos Quatro Ventos: Palimpsestos Musicais da Europa Central (Séculos XIX-XXI), vários artistas apresentaram um reportório desde a época romântica à atualidade dos países do Grupo de Visegrád – Eslováquia, Hungria, Polónia e República Checa –, com obras de compositores tão marcantes como Janáček, Kurtág, Dadák, Chopin, Malec, Dvořák, Dusík, ou Kodály.

 

No passado dia 14 de abril, a Igreja Matriz de Nossa Senhora Entre As Vinhas, em Mértola, lotou para assistir a um elenco de exeção, com músicos vindos dos países que fazem parte do Grupo de Visegrád, todos alunos da prestigiada Academia de Música Ferenc Liszt, em Budapeste. Aos dois cantores que triunfam na ópera, a meio-soprano Anna Fürjes e o tenor Miloslav Sýkora, juntam-se dois génios do piano, Jan Vojtek e Lukasz Piasecki, a violoncelista Kristina Vocetkova, e a virtuosa do cimbalão, Gabriela Jílková.

A Academia de Música Ferenc Liszt é a única escola de música do mundo fundada pelo próprio pianista húngaro. Compositor, maestro, professor, autor e filantropo, estabeleceu a instituição de Budapeste, em 1875. Talvez não seja exagero dizer que nenhuma outra escola de música teve um impacto tão grande no desenvolvimento do panorama musical mundial como a Academia Liszt. É ali, nas margens do Danúbio, que o amor e a música crescem lado a lado e ambos são sustentados com a paixão certa. É ali, às margens do tempo, que nascem músicos e vivem enquanto podem fazer música. Sem música não há vida e a Academia Liszt é o porto para e do qual os navios carregam músicos para todo o mundo. A Academia sempre se orgulhou de atender aos padrões estabelecidos pelos seus fundadores e respeitados professores. Isso significa que os estudantes encontram um estilo de ensino húngaro especial e exigente, onde a educação concentra-se em entender o significado da música e a arte de tocar em conjunto. Aqueles que entram na Academia Liszt sabem que a participação envolve um compromisso sério com uma abordagem perfecionista da música em todas as áreas, desde a clássica ao jazz, da folclórica à sacra, composição, musicologia e formação de professores de música. Mas qual a relação da Academia Liszt com o Método Kodály? Em primeiro lugar, Zóltan Kodály foi aluno na Academia. Em segundo, tanto Liszt como Hubay, Popper, Dohnányi, Bartók, Weiner e Kodály estão entre os grandes professores que figuram na história da Academia. Em terceiro lugar, as aulas de pedagogia musical são baseadas no conceito Kodály.

Hoje em dia, existem quase tantas abordagens para aprender música quanto músicos. Qualquer estilo de ensino tem uma filosofia, e essa filosofia influencia o que é ensinado e como é ensinado. O Método Kodály interativo, colaborativo e altamente cinestésico de aprendizagem da música foi desenvolvido pelo compositor e educador húngaro Zoltán Kodály, no início do século XX. Por enfocar as habilidades expressivas e criativas da musicalidade – em vez da teoria ou das habilidades instrumentais –, a abordagem de Kodály está intimamente relacionada com o mundo do treino do ouvido musical. Por ter crescido no centro da inquietação política do seu país, o compositor procurou uma maneira de preservar a cultura húngara e encontrou a resposta na música. Kodály acreditava firmemente na importância do património e da cultura na educação musical, chegando mesmo a afirmar que não havia melhor música do que a cultura de uma criança para ensinar às crianças a alfabetização musical básica. Para este fim, o sistema desenvolvido por ele integrou o canto de canções folclóricas na língua materna dos alunos. Mas o Método Kodály, tal como o conhecemos hoje, não foi técnica e diretamente desenvolvido pelo próprio. Pelo contrário, foi um sistema que evoluiu organicamente nas escolas de música da Hungria sob a instrução e orientação do compositor.

As ideias de Zoltán Kodály estão enraizadas em várias fontes que ele integrou no seu próprio pensamento, uma combinação que produziu uma filosofia especial sobre a educação musical. Ele acreditava que a música deveria ter uma função cultural essencial e um status social significativo. Desta forma, os princípios de Kodály focavam-se em quatro pontos principais: a música deve ser ensinada de maneira lógica e sequencial; deve haver prazer em aprender música, não devendo ser a aprendizagem uma tortura; a voz é o instrumento universal mais acessível e, por último, o material musical é ensinado no contexto da música folclórica da língua materna dos alunos. Este método coloca uma ênfase na aprendizagem intuitiva e iterativa, utilizando técnicas que envolvam o aluno o máximo possível, integrando movimentos corporais, canto e exercícios em grupo.

O concerto de sábado à noite foi uma oportunidade única para se ouvir um reportório de luxo com jovens músicos e alunos da Academia de Música Liszt, que não esqueceram de prestar homenagem ao grande compositor húngaro. Zoltán Kodály escreveu, em 1926, a sua primeira grande obra para orquestra, Háry János, para acompanhar uma ópera baseada num poema do poeta húngaro János Garay. A história de Háry János é baseada numa figura histórica real do século XIX, e retrata a vida de um homem velho que inventava tantas outras histórias sobre as aventuras que tivera na sua juventude. E Kodály pretendia que sua música fosse levada tão a sério quanto as afirmações do velho homem. Dividida em quatro partes, com prólogo e epílogo, a ópera está saturada de tradições húngaras e expressões idiomáticas, provando que o corpo de trabalho de Zóltan focava-se, essencialmente, numa mistura distinta de clássico, romântico tardio, impressionista e modernista, enraizado nas tradições folclóricas da música húngara. Outra oportunidade singular no decorrer do concerto e, nomeadamente, durante a suite Háry János foi a presença de um cimbalão – instrumento musical húngaro – que foi generosamente cedido pela Casa da Música, sendo o único existente em Portugal. Todo o concerto foi objeto de uma interpretação tão entusiástica que o público irrompeu em aplausos do início ao fim.

Fotos: Arlindo Homem

 

La Bohemie.

 

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