A cidade voltou a mexer com o Vodafone Mexefest.

Costuma-se dizer que «em equipa vencedora não se mexe», mas o Vodafone Mexefest mexe e faz mexer. Inspirado no South by Southwest, em Austin (Texas), o festival tem sido um marco cada vez mais importante para a cidade de Lisboa. É difícil delinear um roteiro ideal e é impossível ver-se tudo, principalmente quando há tantas coisas a acontecer ao mesmo tempo, mas o Mexefest serve para isso mesmo – para ver, conhecer e descobrir um pouco de cada banda e artista. Com cada vez mais participantes, as ruas enchem-se de pessoas, os restaurantes e quiosques têm casa cheia, o frio combate-se com chocolate quente, a barriga alimenta-se com bifanas e bolas de Berlim, os amigos encontram-se a cada esquina, os turistas olham curiosos, as redes sociais fervilham com fotografias. O Vodafone Mexefest reinventa-se todos os anos e traz para a cidade a oportunidade de também ela se transformar. O Vodafone Mexefest faz-se de dois ingredientes essenciais: um cartaz de qualidade inegável e a descoberta de salas icónicas da cidade de Lisboa, sempre com novidades à mistura.

 

Música portuguesa com certeza

 

Foto: Miguel Louro Costa

Este ano o festival Vodafone Mexefest apostou numa forte presença de música portuguesa e lusófona o que traz a muitas bandas a oportunidade de emergirem e destacarem-se perante um público que está cada vez mais habituado a festivais de massas e elites. Tiago Castro, homem há muito ligado à música e à rádio, inventou o projeto Acid Acid. A sua música é uma fusão perfeita entre a melodia e a experiência, criativa e viciante. Munindo-se de sintetizadores, guitarras e pedais, Tiago fez-se acompanhar por Violeta Azevedo na flauta transversal e transportou-nos para um universo sonoro ambiental banhado a psicadelismo, com apontamentos do rock progressivo. A sua música é construída paulatinamente, com cada camada a revelar um novo trilho num cosmos muito particular. Ontem à noite, com o debut de estreia, ofereceu-nos um concerto na Sala Montepio (Cinema São Jorge) promotor de viagens onde a toponímia não tem lugar e que, sem danos para a saúde, potencia a imaginação elevando-a para um esplendor indescritível.

 

Foto: João de Sousa

São precisos dois para dançar o Fadango. Gabriel Gomes e Luís Varatojo há muito que se cruzam pelos palcos da música nacional e ontem à noite atuaram no Cinema São Jorge com sala cheia. Ambos têm perseguido um objectivo comum: criar propostas artísticas a partir de referências da música de raiz portuguesa, livres de condicionantes estilísticas e de imposições comerciais. Este Fandango explora as sonoridades dos seus instrumentos principais – o acordeão e a guitarra portuguesa – num contexto onde a electrónica comanda a acção e apela à dança. É impossível não dançar. Da mistura entre a música electrónica e instrumentos acústicos, as músicas do FANDANGO soam a algo quase exótico que tanto podem fazer a banda sonora perfeita para um pôr do sol na costa atlântica, como a animação para uma noite na pista de dança como aconteceu na Sala Montepio. A diversidade de ritmos e outros elementos sonoros utilizados pelos músicos capturam a essência da música portuguesa, numa colorida harmonia entre linhas de sintetizadores e batidas de caixas de ritmos, que nos transportam numa viagem musical pela paisagem e cultura do país.

Foto: Luís M. Costa

Como um relógio que toca à hora marcada, quando o Vodafone Cuckoo soa anuncia-se a chegada de uma performance exclusiva. A dupla Moullinex e Da Chick subiu à varanda do Coliseu dos Recreios duas vezes ontem à noite para uma atuação única e pensada especificamente para o Vodafone Mexefest, adaptada ao local inédito onde atuaram. A par do Vodafone Cuckoo, a edição deste ano do festival apresentou outras ações especiais: as Vodafone Vozes da Escrita e os Concertos Surpresa Vodafone. A primeira consistiu em sessões de leitura onde a palavra ganhou destaque na voz de artistas que fazem das palavras rimas, e das rimas canções: Mike el Nite, Da Chick, Fuse e Carlão que fez rir milhares de pessoas minutos antes do concerto de Jagwar Ma no coliseu dos Recreios. O Vodafone Mexefest, sempre a inovar, oferece à cidade dois Concertos Surpresa, com entrada livre mesmo para quem não tem pulseira do festival. O primeiro destes Concertos Surpresa Vodafone aconteceu ontem à noite, no Largo São Domingos e o artista convidado foi Jorge Palma. Para o Vodafone Mexefest o músico preparou um espetáculo acústico e intimista, que antecipa os seis concertos de comemoração dos 25 anos do álbum que realiza nas próximas semanas.

Foto: João de Sousa

Quem também fez parte da festa foram os Kumpania Algazarra, banda convidada para tocar no eixo Avenida-Rossio e animar quem passava e se juntava à folia. Esta sonora algazarra vagueia pelas músicas dos cinco continentes, transformando os sons em que toca numa festa ambulante, ao estilo das fanfarras europeias. Saltimbancos, filhos da estrada e do vento, músicos em folia permanente submergidos num cocktail de música animada, as suas combinações de notas musicais formam um rendilhado de culturas, onde estão presentes, de forma conjugada ou separada, os sons balcânicos, árabes, latinos, africanos, o ska, o funk e o hip-hop.

Da Americana ao psicadelismo

 

Foto: Miguel Louro Costa

Chris Baio não é só o baixista dos Vampire Weekend.  Baio é, muito além de um apelido, o nome que a arte sonora do multi-instrumentista leva para nos oferecer a mais cativante e interessante música pop feita de eletrónica dos nossos dias. O lastro dos VW encontra-se presente nas composições de Baio, mas há claramente um cunho de originalidade e talento criativo singular que faz das edições do músico produtos mais do que recomendáveis. Depois de dois EP, Mira e Sunburn, Baio estreou-se o ano passado em formato longa duração com The Names, disco que tocou ontem à noite na Estação do Rossio.

Foto: Miguel Louro Costa

Para os que se deleitam com os géneros Americana, alt-country, ou blues e folk-rock, Howe Gelb apresenta-se há mais de três décadas como um dos ícones que sabe harmonizar de forma brilhante todas estas sonoridades. O compositor, intérprete, instrumentista e produtor de Tucson, Arizona atuou ontem na ilustre Casa do Alentejo. Com sala lotada e filas à porta, Gelb trouxe-nos a sua já conhecida fusão de estilos – do punk ao jazz e ao roots-rock. Gelb tem colaborado com inúmeros artistas, editando incontáveis discos, quer em nome próprio como com os projectos que vêm imortalizando o seu nome. Na música de Howe Gelb há uma marca profundamente americana num tom lo-fi contido, ecléctico, com ecos de folk, mas as narrativas que constituem as suas canções são universais. Por isso, Howe Gelb é um músico em constante trânsito pelo mundo, conquistando plateias diferenciadas.

Foto: Miguel Louro Costa

Com casa praticamente cheia, Jagwar Ma foram os últimos a atuar no dos Coliseu dos Recreios. A dupla australiana Gabriel Winterfield e Jono Ma fazem-se acompanhar ao vivo pelo conterrâneo Jack Freeman e ninguém ficou indiferente à sua energia em palco. Desde o disco de estreia de há 3 anos, Howlin, são uma das bandas sensação com mais impacto no público e na crítica independente do momento. O que começa com um certo psicadelismo experimental no tema «Loose Ends» termina em seco a poucos segundos de ter começado e abre caminho para as outras oito canções que realmente definem o som do segundo álbum de Jagwar Ma – um Every Now & Then que, ao contrário do seu debut Howlin (2013), flirta com ritmos mais próximos da pista de dança, a caminho entre o electrónico ou dançante, inundando temas como «Give Me A Reason» ou «Slipping» de dinâmicos beats, sintetizadores harmoniosos e refrões pegajosos que levam o público a movimentar-se freneticamente. Embora a intensidade continue elevada em todo o disco, o trio australiano encontra em «Don´t Make It Right» um necessário e acertado momento de introspecção e calma. O disco de estreia constituiu-se como um espantoso combo de canções a vibrar de psicadelismo, rock, synth e eletrónica. Ontem à noite ofereceram-nos mais do mesmo porque a fórmula é imbatível e contagiante. Every Now & Then é um disco cheio de pulso e a saber sinfonizar todos os elementos.
Hoje ainda há muito para ver no Vodafone Mexefest.
Fotos: João de Sousa
           Miguel L. Costa
La Bohemie.

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