A delicadeza da música de Momo é uma arte – concerto na Casa Independente.

O cantor e compositor brasileiro Momo, nome artístico de Marcelo Frota, está de volta a Portugal e atuou na sexta-feira passada na Casa Independente, depois da sua estreia em Maio de 2015. Com um espetáculo num formato intimista, Momo apresentou um concerto orgânico, usando apenas a voz e violão para nos guiar pelo seu percurso musical, no qual já fazem parte quatro discos merecedores de vários elogios da imprensa brasileira e internacional.

Momo _ créditos Nuno Carvalho (4)

Com casa cheia de fãs e amigos, e acompanhado por Hugo Fernandes no violoncelo, Marcelo Frota iniciou o concerto com músicas do seu primeiro álbum, A Estética do Rabisco (2006). Os arranjos são engenhosos, ocasionalmente barulhentos, repletos de efeitos que remetem para o rock psicalético, mas a noção é reforçada pela interpretação do cantor, suave, às vezes não muito além do sussurrado. O disco é calmo e repleto de músicas lentas, um caminho de delicadeza, apenas com arranjos limpos e minimais. A primeira canção da noite foi «Flores do Bem», talvez uma das melhores do disco, e seguiram-se a plácida e sugestiva «Leão» e a viajante «Segredo não se diz». Já o seu segundo registo Buscador (2008) é pura emoção condensada, com inspiração de folk norte-americano e música brasileira da década de 1970. Os temas «Nuvem Negra» e «Preciso Ser Pedra» são canções instrospetivas, comprimidas numa sensibilidade aguda que deram origem a um trabalho denso, sério e amargurado. É impossível ouvir Marcelo Frota e não nos deixarmos envolver em profundos sentimentos nostálgicos, evitar um suspiro ou esboçar um tímido sorriso.

Momo _ créditos Nuno Carvalho (5)

O seu sucessor Serenade of a Sailor (2011) é doce, frágil e essencialmente suave na sua composição. Momo, com o olhar distante mas sentado tão perto de nós,  incorpora o marinheiro solitário cujas únicas companhias são a imensidão do oceano e o seu violão que ressoa como pequenas ondas num mar calmo, acompanhado de um clima nublado e triste, e parte em busca de um retrato instrumental doloroso, como quem procura um farol para os próprios sentimentos. O terceiro disco encanta com a sua simplicidade e deixa o público com os sentimentos à flor da pele, assobiando e batendo palmas freneticamente a cada música. Sem o tom psicadélico, mas ainda imerso no universo folk, Marcelo cruza o mar da solidão neste álbum também ele em tom intimista e melancólico, cantado ora em português ora em inglês, sem os impulsos vocais que poderiam evidenciar os limites do artista como intérprete. Protagonizada pelo próprio Momo com sonoridade que parece tão vintage quanto paradoxalmente contemporânea, a canção do «Pescador» é conduzida pelo violão, mas é orquestrada com a ajuda da primeira convidada da noite: Rita Red Shoes. A bordo de uma nítida cumplicidade e amizade, ambos apresentam uma comovente serenata marítima, imersos nas águas da solitude, na qual Marcelo não esconde a sua figura solitária, como uma espécie de indivíduo entregue à deriva como ele mesmo anuncia “Às vezes eu me sinto assim, tão só, pescador em alto mar”. O movimento introspetivo do seu barco levou o artista para um porto em que se identifica a influência de Marcelo Camelo na construção e formatação das melodias. Ainda acompanhado pelo sorriso e talento de Rita, este marujo navega melancólico pelo tema «Meu Céu» (composto por ambos) e logo de seguida, canta a solo os temas «Blue Bird» e «Tenho que Seguir», realçando os versos de esperança “Felicidade é caminhar sem ter medo / De acreditar no coração”. Ciente de que a emoção é o combustível que move qualquer composição musical graciosa e delicada, no mar ou em terra, Marcelo Frota abre o coração com coragem desmedida e canta o tema «Barco» – “Um dia você vai entender / Que o que vale é o sentimento”, acompanhado desta vez pelo vozeirão da segunda convidada da noite: Mitó Mendes, que cantou e tocou ainda o seu tema «O ar cansado dos meus vestidos».

Momo _ créditos Nuno Carvalho (3)

Depois de seguir pela melancolia de Serenade of a Sailor, Momo continua com mais uma ode à solidão. Intitulado Cadafalso (2013), o último registo do cantor e compositor parece resgatar os ambientes amargos testadas no clássico Buscador, transformando a simplicidade do violão no mecanismo para colorir os vocais com uma cor acinzentada. O tema «Uu» é uma composição pueril com letra e poesia simples, mas que ganha no fim cores e tons do barroco mineiro, é a inflexão onde cabe verbalmente o azul, o vermelho, o rosa, o roxo e, por fim, o cinzento, tom predominante no disco acompanhado pelas dezenas de assobios do público. Já «Recomeço» retrata o mundo a ruir e a esperança de um tão esperado recomeço. «Alfama» e «Borboletas», temas novos criados e cantados com o fadista Camané – último e não menos importante convidado da noite, portador de uma voz e carisma que não fazem (felizmente) jus ao seu tamanho. Quase a terminar o espetáculo, o tema «Cadafalso» é poesia arrebatadora e o fio condutor do disco, só com voz e guitarra e, por último, sem direito a encore nem bis ou repetição, «Copacabana» conta a história de uma relação amorosa que ganha contornos sombrios e mares revoltos, uma Copacabana cinzenta e misteriosa como pano de fundo. As letras continuam a transparecer melancolia, carregada de pássaros negros, madrugadas frias, ilusão, desilusão, solidão e um pouco de nostalgia. «São faixas que revelam o passado, canções que clamam por um amor perdido e composições que tentam restabelecer o músico em terra firme depois da temática do penúltimo disco».

Momo _ créditos Nuno Carvalho (1)

Às escuras, apenas iluminada com um jogo de luzes quentes, a sala da Casa Independente encheu e, apesar do longo cruzeiro por todos os discos, o concerto soube a pouco. Não há como cansar da voz, postura e olhar de Momo. Ficou a faltar a minha música preferida, «Eu vou pro Ceará», de Humberto Teixeira, mas não é mentira assumir que assisti a um dos concertos mais simples e bonitos dos últimos tempos, no qual encontrei nas confissões de Marcelo Frota e os seus ilustres convidados uma forma de entender as minhas próprias angústias e amarguras, como se as letras tão puras e simples me tocassem no fundo da alma. Momo desabafa com tanta naturalidade sobre temas tão íntimos e comuns a qualquer um de nós, dando uso a melodias detalhadas e arranjos trabalhados que transmitem mensagens quase universais. A dicção a cada fonema, puro e cristalino que ressoa no ouvido, o dedilhado, a execução a cada acorde, o olhar perdido e vidrado. Nunca a faceta existencialista sempre tão latente do artista esteve tão francamente patente ao ouvinte. «É, Momo tocou bonito!»

Fotos: Nuno Carvalho

La Bohemie.

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