A multi-musicalidade do SBSR e do SILVA.

Se o primeiro dia se focou na onda do rock e no segundo prevaleceu o hip-hop, o terceiro e último dia do Super Bock Super Rock fez-se de nu metal e electrónica, indie pop e stoner, bossa nova e sinth pop. Foram tantos os tipos e estilos musicais que passaram pelo Parque que nos vamos focar primeiro no último. SILVA regressou a Lisboa e atuou no Palco EDP, onde, de forma descontraída, viajou um pouco por todos os seus discos, num ambiente intimista e relaxado.

 

O artista brasileiro SILVA subiu ao Palco EDP e, sem medos e hesitações, começa e termina com dois temas daquele que foi, talvez, o maior erro no seu percurso espacial, Júpiter. SILVA coloca de lado os instrumentos de corda acústicos e aposta na simplicidade chill out e no R&B. O sinth pop, as diversas camadas e os convidados especiais a que nos habituou foram dispensados. No palco, estamos perante um novo Lúcio Souza, as batidas são simples, um riff de guitarra aqui e um sintetizador ali e pronto, já chega. O álbum é um disco construído numa redescoberta pessoal, criando uma espécie de liberdade interna e uma necessidade de renovação, como se SILVA propusesse no tema «Júpiter» uma reentrada na sua própria atmosfera, como se SILVA quisesse dizer ao mundo com a canção «Feliz e Pronto» que cresceu e que agora, dono de si mesmo, fará o que quiser como e quando quiser. Mas Júpiter é um disco que carece de amadurecimento de ideias, soa a fraco em muitos momentos, embora, por outro lado, possa ser um ponto de partida para um recomeço. São longos minutos em que SILVA parece andar em círculos, alimentando-se sempre da mesma fórmula criativa. Falta novidade, cheiro a tinta acabada de pintar, e prova disso ecoa logo no tema de abertura. Numa atuação com poucas batidas, guitarras e sintetizadores, o cantor passeia pelo cosmos e diferentes cidades – Paris, Madrid, São Francisco – em busca de um metafórico refúgio romântico. Júpiter não é um disco mau, há emoção, faixas executadas com coerência e versos sempre acessíveis, mas falta-lhe Marte, algo que disfarce a constante sensação de dar voltas e mais voltas sem sair do mesmo lugar, mesmo que esse lugar seja o maior planeta do Sistema Solar.

Felizmente, o artista – que já havia atuado em Lisboa – poupou-nos a um concerto dedicado exclusivamente ao seu mais recente disco, Silva Canta Marisa Monte, um registo no qual demonstra o seu amor pela música de Marisa Monte, dando uma nova abordagem aos maiores sucessos da cantora, como em «Mistério do Planeta» e «Ainda Lembro». Do notável álbum de estreia, Claridão, fez parte apenas o tema «12 de maio», centrando a sua atuação no disco de 2014, Vista Pro Mar, um trabalho que surgiu numa tarde ensolarada numa piscina – como se fosse um caso de amor adolescente, daqueles que nos rende um ano de dor de cabeça criativa.

Os raios de sol trespassam a pala do Pavilhão de Portugal e queimam na cara. O som das gaivotas mistura-se com o do mar logo no início da canção «É Preciso Dizer», o que propositadamente proporciona ao ouvinte uma paisagem sonora de quietude, paz e, consequentemente, de afeto. Afeto esse que, acompanhado de belíssimos acordes sintetizados criados com mestria por SILVA, ganham corpo e forma numa poesia musicalizada sobre o amor e as suas singularidades mais peculiares e profundas que nos fazem bem e nos provocam a sensação vibrante de felicidade. Afinal, é preciso dizer alguma coisa que nos atropela dentro do peito. A canção carrega uma pop divertida de ouvir, possui um refrão bem melódico e dançante, seguindo uma receita de dosagem perfeita de synth pop. «Entardecer», com uma guitarrada reggae, marca o fim de tarde da canção, e o clima nostálgico de SILVA leva-nos o corpo e alma durante grande parte da música, e traz-nos a sensação daquele pôr-do-sol numa qualquer praia, com um amor de verão que foi bom porque não durou mais de dois dias. «Volta» é um aperto no coração e, apesar de não ser uma faixa de grande destaque, segue o mesmo clima dançante do álbum. Já «Capuba» relembra os primórdios da música eletrónica, com uma sonoridade da década de 80, sensacional. Em «Capuba», SILVA conseguiu seguir a proposta do álbum: levar-nos a ver o mar, no sentimento ou no pensamento que voam para longe quando ouvimos a música, como se de um búzio junto ao ouvido se tratasse. O tema leva-nos de regresso uma vez e outra vez à beira mar para sentirmos a brisa a maçar o rosto, o gosto salgado nos lábios, os cabelos despenteados e os arrepios na pele. Fechamos os olhos, viajamos nas estrelas e relembramos que o tempo simplesmente deixou de existir. Ficou na memória, ficou no coração, ficou no mar de «Capuba». Para terminar o concerto, «Janeiro» é sempre um recomeço, uma atitude, um tema bem peculiar que possui um clima alegre com instrumentos de sopro embalando os refrães e o fim das respetivas canções.

Vista pro Mar não é um disco completamente distanciado do trabalho anterior. É apenas um disco feito sob outro ângulo, com uma criatividade cativante: enquanto Claridão pedia a sombra de uma árvore e a relva de um parque ou o conforto solitário de um quarto vazio, Vista pro Mar pede sol, brisa e maresia. Não é um mergulho, é só um eterno contemplar do horizonte. E é um belo horizonte o que se vê. SILVA diz que «Terminar um disco é como reencontrar aquele amor adolescente anos depois, mais velho, mais maduro e mais bonito e pensar: ‘Acho que vou chamá-lo para sair.’» Nós dizemos que foi um concerto bonito e fugaz, tal como a uma curta e intensa paixão de verão, a olhar o mar.

La Bohemie.

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