A Música sacra que encanta o Património – estreia do ensemble Polyphõnos.

O festival Terras sem Sombra continua a ser exímio no seu cartaz. O concerto de inauguração do ensemble vocal e instrumental Polyphõnos, na Igreja de São Salvador, em Odemira, no passado dia 4 de março, registou lotação esgotada e assistiu-se a um momento verdadeiramente memorável. Com o mote «De Beata Virgine Maria: Obras Portuguesas de Invocação Mariana», o reportório fundamental deste ensemble sediado em Lisboa centra-se na música portuguesa e ibérica dos séculos XV a XVIII.

O programa a que assistimos no sábado à noite evocou o contraste entre os modelos polifónicos da música portuguesa do século XVI – vindos do Renascimento e transformados pela estética maneirista que realça de modo intenso o significado do texto – e os modelos do século XVIII, vindos do Barroco italiano e que privilegiam a teatralidade, o contraste e o estilo concertante. Traçou-se, assim, um percurso que foi do quinhentismo de Estevão de Brito, ao setecentismo de Francisco António de Almeida, do renascentismo tardio de Duarte Lobo, ao barroco de D. Pedro da Esperança, passando pela polifonia de Diogo Dias Melgás, em alternância permanente com a música de João Rodrigues Esteves, que soube integrar o seu tempo e criar páginas sublimes de música portuguesa. Sob direção musical do barítono José Bruto da Costa, com o organista Sérgio Silva, a soprano Raquel Alão e a mezzosoprano Carolina Figueiredo, este concerto contou também com o tenor Manuel Gamito, o baixo Tiago Mota e ainda os solistas Manon Marques, Mónica Antunes, Patrícia Mendes, Rosa Caldeira, Rui Miranda e Ana Raquel Pinheiro no violoncelo barroco.

Foto: Arlindo Homem

Foto: Arlindo Homem

A actuação dos Polyphõnos começou com o hino «Ave Maris Stella» e a antífona «Sancta Maria» do compositor português renascentista da polifonia Estevão de Brito. A dois coros os versículos em cantochão foram entoados à distância, com os senhores fora do palco, produzindo um belo efeito sonoro e visual. Seguiu-se a oito vozes o «Magnificat» de Duarte Lobo, o mais famoso compositor português do seu tempo e, juntamente com Filipe de Magalhães, Manuel Cardoso, e Pedro de Cristo, considerado um dos expoentes da “época dourada” da polifonia portuguesa.

Foto: Arlindo Homem

Foto: Arlindo Homem

Embora tenha composto também uma missa para a Quaresma, o compositor crúzio DPedro da Esperança é conhecido sobretudo pelos seus responsórios para as matinas do Natal para vozes e instrumentos, dos quais foram interpretados «O Magnum Ministerium», «Beata Dei Genitrix» e «Beata Viscera MariaeVirginis». Já Diogo Dias Melgás nasceu em Cuba do Alentejo, mas foi em Évora que permaneceu o resto da sua vida, sendo o último dos grandes mestres da polifonia portuguesa que floresceu na cidade alentejana, na segunda metade do século XVI. Uma grande parte do trabalho de Melgás está perdido e as sobreviventes obras – missas, motets, graduals – são mantidas nos arquivos das catedrais de Évora e de Lisboa. No concerto foram interpretadas duas antífonas marianas do compositor para dois coros: «Recordare Virgo Mater» e «Salve Regina».

Foto: Arlindo Homem

João Rodrigues Esteves é muito provavelmente o maior compositor de música sacra da primeira metade do século XVIII. Esteves foi um dos compositores financiados por D. João V para realizar os seus estudos em Roma, ocupando, após regressar a Lisboa, os cargos de compositor da Patriarcal e mestre do Real Seminário de Música. O seu «Stabat Mater»muito italiano e do barroco colossal romano, – e é bem possível que tenha sido influenciado pela audição do Stabat Mater de Alessandro Scarlatti – é uma passagem belíssima e admirável, percorrida por dissonâncias e ousadias harmónicas, beneficiando um momento de profunda introspecção e expressividade. Para terminar de forma exemplar, este grupo de intérpretes musicais que trabalharam conjuntamente para criar uma obra reveladora, surpreendente e iluminadora, interpretaram o grandioso «Magnificat» – para dois coros, baixo contínuo e violoncelo barroco – de Francisco António de Almeida, um dos mais talentosos compositores e organistas portugueses do século XVIII e, igualmente, um dos bolseiros enviados por D. João V para Roma para aperfeiçoar a sua formação. Os finais do séc. XVI e o séc. XVII deverão ser considerados o período áureo da polifonia portuguesa. Contudo, no século XVII, uma nova corrente estética, de influência italiana, a que se chamou maneirismo ou pré-barroco, mistura-se com o academismo polifónico, tentando os compositores portugueses a desenvolver uma estética expressiva. Sem dúvida que este período, a que chamamos o século XVII musical em Portugal, é verdadeiramente a confluência das correntes europeias do século XVI ao XVIII.

Foto: Alfredo Rocha

Foto: Alfredo Rocha

Entre polifonias, monofonias, monodias, homofonias e contrapontos em intervalos de oitavas e quintas, temas a dois e três coros, a oito e dez vozes ou motetes, os Polyphõnos compuseram uma bonita e agradável harmonia e tiveram o poder de nos contemplar com uma brilhante revelação, quer pela qualidade e beleza da música, quer pelo alto nível da interpretação. Apesar das partituras sobre as mãos retirarem força e expressão corporal, a forma inteligente como moldaram a emissão vocal e o trabalho de conjunto deu lugar a um óptimo resultado. A disposição em palco foi alternada e repartida de modo a tirar partido do diálogo policoral e a realização do baixo contínuo foi confiada apenas a um orgão positivo com um violoncelo barroco a suportar a linha do baixo. O grupo distinguiu-se também pela acuidade estilística e pela qualidade individual dos seus membros, bem patente nos solo, com destaque para a excelente soprano Raquel Alão. É caso para dizer: Magnificat!

Fotos: Alfredo Rocha // Arlindo Homem

La Bohemie.

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