A razão e o sentimento do Brentano String Quartet.

O festival Terras Sem Sombra continua a somar nomes de luxo no seu cartaz. Ao terceiro encontro, no passado dia 25 de março, foi a vez do prestigiado Brentano String Quartet actuar em Santiago do Cacém e apresentar a lendária e incompleta obra de Bach. Mundialmente reconhecido, este quarteto encantou o público com um concerto intitulado de “Perpétuo Movimento: Em torno d’ A Arte da Fuga”, e lotou a Igreja Matriz de Santiago Maior com uma performance magistral, cuja actuação foi notável pela sua beleza lírica, o seu sentido dramático e o seu tom in loco.

 

Desde a sua criação, em 1992, que o Quarteto de Cordas Brentano – composto pelos violinistas Mark Steinberg e Serena Canin, o violista Misha Amory e a violoncelista Nina Lee – tornou-se conhecido pelo seu brilho técnico, conhecimento musical e elegância estilística. Num concerto cheio de mistério e emoções, o quarteto Brentano, sentado num círculo fechado e intimista, interpretou de forma soberba composições de Carlo Gesualdo, György Kurtág, Bach, Sofia Gubaidulina e Britten. A Arte da Fuga é uma lenda e a última grande obra de Johann Sebastian Bach. Escrita na década de 1740, no momento da sua morte, os seus conteúdos, apesar de em grande parte terminados, foram deixados sem qualquer indicação de instrumentalização ou ordem. E embora tenham sido criadas muito provavelmente num instrumento de teclado, as catorze fugas contidas na obra são muitas vezes tocadas de forma convincente por outros instrumentos, especialmente por quartetos de cordas, como foi o caso da actuação de sábado à noite.

Foto: Alfredo Rocha

A obra composta pelo italiano Carlo Gesualdo, em fins do Século XVI, representa o último estágio da música do Renascimento. A sua linguagem harmónica é considerada até hoje como ousada, intensa, expressiva e extravagante, pois traz consigo os principais elementos de um segmento do repertório renascentista que se caracterizou pelo experimentalismo sonoro: os madrigais italianos tardios. O Brentano conseguiu captar todo o doce tormento das peças – os Cinco Madrigais -, cujo humor vivamente combinado preparou o palco para o que viria a seguir: os seis momentos musicais de György Kurtág.

Foto: Alfredo Rocha

György Kurtág, um dos mais importantes compositores vivos da Europa, não foi esquecido neste estupendo espectáculo e pode ser descrito como um poeta entre os romancistas. Ao contrário do compositor que enfatiza a narrativa – a evolução do drama musical ao longo do tempo – a sua preferência recai para movimentos breves de música em que cada harmonia é cuidadosamente escolhida, cada gesto melódico é destilado e cada sílaba enche-se de potencial e significado múltiplos. Six Moments Musicaux está entre os mais recentes trabalhos do quarteto de cordas de Kurtág e desta vez foi interpretado pelo quarteto Brentano. O termo latino «Invocatio» traz à mente o apelo de um poeta à sua musa no início de uma obra épica. Neste caso, a invocação é dura e embasada, sugerindo um processo criativo difícil e carregado – a passagem contrastante é silenciada, uma melodia murmurada cujas notas são passadas de instrumento para instrumento, culminando num breve e luminoso coral. Seguido de «Footfalls», «Capriccio» é animado e soluça o alívio cómico da obra. Carregado de armadilhas astutas, tanto para os artistas, como para os ouvintes, a música apresenta disfemias, pausas repentinas, explosões rudes e alguns momentos onde a viola parece fugir ao controlo de quem a toca. «In memoriam Sebok György» é um elogio ao seu inspirador companheiro, professor e pianista, e «… rappel des oiseaux…», escrita quase inteiramente em harmónicas, é uma música evanescente, ritmicamente lúdica e interrompida duas vezes num momento sinistro, no qual o violoncelo entoa numa referência ao Dia do Juízo Final. Para terminar os seis momentos de Kurtág, «Les adieux», uma referência a Janáček, lembra o fascínio do compositor pelos ritmos da fala humana e a sua dedicação para recapturar esses ritmos na sua música. Em certas passagens os violinos criam um efeito especialmente distante e etéreo e, já no final, apropriado para um movimento de despedida, a música vaga cada vez mais longe, evaporando-se em silêncio.

Foto: Alfredo Rocha

Guardada para o fim ficou a peça Reflections on the theme B-A-C-H, de Sofia Gubaidulina, que responde com uma música de intensidade arrebatadora, usando os temas de Bach envolvidos, muitas vezes ofuscados por lamentos e figuras contorcidas. O concerto terminou com o quarteto Brentano a interpretar o Terceiro Quarteto de Cordas de Benjamin Britten. Terminado nos últimos meses de vida do compositor, Britten homenageia as obras dos seus admirados contemporâneos, particularmente Dmitri Shostakovich, e é frequentemente saudado como uma das melhores obras-primas instrumentais de Benjamin. O movimento final é sub-titulado de La Serenissima em homenagem a Veneza – uma cidade que Britten amou durante toda a sua vida – provocando uma nostalgia pungente. Desde o início do primeiro movimento que o quarteto se moveu e respirou como um todo, e tocou com um vigor rítmico e uma dinâmica bastante intensa. Ao longo do concerto, os interpretes conseguiram um contraste muito efectivo entre os estados de serenidade e ansiedade que reflectiam o estado psicológico de Britten no momento da sua composição, deixando o público por momentos hipnotizado em silêncio antes de responder com uma ovação entusiasmada.

Foto: Alfredo Rocha

Fotos: Alfredo Rocha

La Bohemie.

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