Barbara Furtuna: um tesouro da ilha da liberdade | Terras Sem Sombra

O etnomusicólogo Michel Giacometti nasceu na Córsega e foi quem primeiro aprofundou as ligações entre o Cante e a Polifonia das zonas rurais dessa ilha. Invocando essa herança partilhada, o festival Terras Sem Sombra chegou à cidade de Beja para receber o mais destacado ensemble corso da atualidade – Barbara Furtuna Voix Corses –, que apresentou no sábado à noite o concerto O Canto na Ilha da Liberdade.

 

Sempre que se fecha a porta de uma igreja em Beja, o festival Terras Sem Sombra abre muitas outras portas, porque apesar do Alentejo não ser uma ilha, é também ele um canto de liberdade. No passado dia 5 de maio, o Convento de São Francisco serviu de palco para receber o ensemble polifónico que faz brilhar a língua corsa, sem nunca abdicar da estreita fidelidade às tradições da ilha Córsega, aos seus valores e à sua história, abrindo uma via artística quase única e recusando cair em lugares-comuns ou reportórios estereotipados. André Dominici, Fabrice Andreani, Jean-Philippe Guissani e Maxime Merlandi escolheram um programa com composições religiosas e profanas, bem representativo da polifonia da Córsega, desde o século XVIII aos dias de hoje, não esquecendo as afinidades com o Cante. Tratou-se de uma ocasião única para conhecer uma tradição musical de que muito se fala, mas que pouco se escuta.

O fado é, talvez, a música tradicional portuguesa mais conhecida a nível mundial, mas Portugal tem uma música folclórica regional muito rica e essa riqueza deriva da grande diversidade de tradições ao longo do país, resultado da confluência de várias influências de origens distantes durante a sua longa história. A existência em Portugal de uma sociedade muito fechada durante décadas, especialmente nas zonas rurais, e a sua não permeabilidade às mudanças rápidas do mundo no pós-guerra, facilitaram a preservação das antigas tradições e da música, como é o caso do Cante. A sua importância e sobrevivência refletem-se ainda nos dias de hoje e uma das contribuições mais importantes para a manutenção desse património foi a de Michel Giacommeti. O etnomusicólogo nasceu na Córsega, mas foi em Portugal que passou o resto de sua vida, onde viajou por todo o país e fez um estudo sistemático da música folclórica portuguesa. Michel Giacometti nasceu para contar histórias, histórias de um povo que já desapareceu, mas não morreu.

A linguagem. A identidade. A cultura. A força da alma da Córsega. Ao longo de quinze anos, o quarteto Barbara Furtuna tem-nas honrado e elevado sem a necessidade de transcrevê-las na literatura constitucional. Se a inspiração do grupo é extraída das profundezas da tradição da ilha, a banda evolui nas fronteiras de uma história sempre viva e uma criação que renova o repertório e se abre para a música de outros lugares. Fiéis às tradições da ilha, aos seus valores e à sua história, e graças ao canto, os membros deste ensemble permitem construir pontes onde as nossas sociedades, cada vez mais frias, insistem em construir muros.

Tal como Giacometti, estes artistas contribuem para transmitir ao mundo toda uma seção da cultura da ilha, cantando exclusivamente em corso. E em toda parte, é esta capacidade de se moverem através da beleza do canto e da música que é apresentada em palco. Durante a noite de sábado, o quarteto encantou o público com melodias mais contemporâneas que se desviam da trilha batida e tornam a música mais acessível igualmente associada ao repertório sagrado. Mas além do repertório litúrgico, Barbara Furtuna ofereceu ao público melodias seculares sobre temas como o amor. Porque o amor também é ele próprio um canto de liberdade. A originalidade do grupo reside na sua capacidade de desenhar os dois estilos existentes na Córsega: o alto das montanhas, com vocais vigorosos e rústicos, e a beira do mar, suavizada por influências externas. Essa alternância deu um ritmo tónico e intenso ao seu desempenho no Terras Sem Sombra, lindo e libertador, tal como a ilha deles.

Fotos: Arlindo Homem | Terras Sem Sombra

 

La Bohemie.

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