Clarines de Batalla, o tocar da trombeta | Terras Sem Sombra

O sétimo encontro do Terras Sem Sombra aconteceu, pela primeira vez, no Alto Alentejo durante os dias 19 e 20 de maio. A Igreja Nossa Senhora da Assunção, antiga Sé da cidade de Elvas, abriu as portas ao público para assistir à estreia em Portugal do ensemble Clarines de Batalla. Este trio espanhol, de referência em música antiga, foi o protagonista do espetáculo Guerra e Paz: A Trombeta Histórica na Música Barroca Europeia, um concerto com enfâse para o Barroco.

 

No passado dia 19 de maio, a cidade de Elvas abriu as portas das suas grandes muralhas para receber o festival Terras Sem Sombra. O espetáculo Guerra e Paz: A Trombeta Histórica na Música Barroca Europeia foi uma autêntica estreia em Portugal e deu a conhecer um valioso repertório de obras religiosas, mas também militares e de corte, dos séculos XVII e XVIII, com enfâse para o Barroco, escritas por grandes músicos europeus para trombetas históricas, órgão e percussões. Os mentores do ensemble espanhol Clarines de Batalla –  o trombetista Vicente Alcaide, o organista Abraham Martínez e o percussionista Álvaro Garrido –  são figuras de referência no panorama musical peninsular e internacional, tendo gravado recentemente o disco homónimo, dedicado à trombeta histórica.

Os dados históricos da trombeta em Espanha são muito escassos, e resultado dessa escassez é a discografia praticamente inexistente da música barroca espanhola, na qual a trombeta é protagonista. Vicente Alcaide, Abraham Martínez e Álvaro Garrido entenderam que era necessário preencher este vazio e valorizar a enorme herança musical espanhola na História. Mas para isso, e acima de tudo, eram necessárias obras de pesquisa musicológica para endossar e apoiar a interpretação de toda essa música. Assim nasceu o álbum Clarines de Batalla. Martín y Coll, o primeiro disco de música barroca espanhola com trombeta solista. A música selecionada para este disco pertence ao repertório do Barroco espanhol e foi compilado pelo frade franciscano, organista, compositor e colecionador de música Antonio Martín y Coll (1660-1734) em vários livros publicados no início do século XVIII.

Com este álbum, o trio restitui, de alguma forma, a música compilada por Martín y Coll às trombetas que, embora em poucas ocasiões fossem as destinatárias, foram as grandes inspiradoras de todo este trabalho. Com mais de trinta peças, encontramos principalmente danças, como minuets, rigodons e ciacconas, alternadas com músicas a dois clarins, jogos de ecos e batallas, além de algumas peças solo. Ao som majestoso e brilhante das trombetas e do órgão, acrescenta-se a percussão histórica que, embora não substitua os timbales barrocos, ajuda a entender o carácter de cada peça. O som da trombeta é de uma clareza e delicadeza digna de revisão, ainda mais levando em conta a dificuldade técnica do instrumento. Clarines de Batalla. Martín y Coll é um disco muito interessante tanto para o repertório e sua interpretação quanto para a pesquisa apresentada nas notas do álbum.

Embora a música de Martín y Coll tenha sido escrita originalmente com o objetivo de ser tocada por organistas, é verdade que grande parte deste trabalho é influenciado, do ponto de vista da composição, pelo estilo interpretativo usado na época pelos clarins. O facto de emprestar o estilo da trombeta para adaptá-lo às composições orgânicas não é acidental. Falar da estreita relação que o órgão e a trombeta tiveram ao longo da história convida-nos, sem dúvida, a pensar na simbiose existente entre o timbre do clarim – nome usado para designar as trombetas que tocavam em registo agudo –, e as diferentes cores produzidas pelos vários registos do órgão, combinação que nos leva a ter a sensação de que antes de tudo impressiona pela sua beleza e solenidade. O uso da percussão é o complemento perfeito para os clarins, emulando tempos passados ​​em que trombetas e tambores desenvolviam atividades militares ou cívicas sempre a serviço da corte ou de organismos públicos, antes da inclusão da mesma na música culta.

Sendo bastante evidente a influência que os verdadeiros clarins tiveram na escrita da música para órgão, sobretudo em batallas e peças para clarins, com este projeto discográfico tocado no concerto de sábado à noite, o ensemble espanhol surpreendeu-nos ao estabelecer um paralelismo de grande interesse entre o órgão e o instrumento original, o qual tentava imitar – a trombeta natural – , contribuindo com o seu estilo interpretativo ao esplendor das trombetas dos órgãos ibéricos.

Fotos: Arlindo Homem | Terras Sem Sombra

 

La Bohemie.

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