A polissemia de Mitra – concerto de PAUS no Cinema São Jorge.

Na sexta-feira passada, dia 12, a sala principal do Cinema São Jorge lotou para receber uma das bandas mais faladas nos últimos dias, PAUS. O quarteto, que se enclausurou no seu novo estúdio HAUS, surge agora para iniciar uma nova digressão pelo país e dar a conhecer o mais recente  álbum, Mitra.

 

A primeira parte do concerto foi entregue ao cabo-verdiano Lula´s (Luís Gomes), mais conhecido por Cachupa Psicadélica. Sozinho em palco e de guitarra ao peito, trouxe consigo temas do disco de estreia, Último Caboverdiano Triste. Depois da belíssima cover «Love Buzz», ouvem-se temas “para fazer fotossíntese”, entre eles «Amor d’1 Laranjeira» e o single «3/4 de Bô», músicas das entranhas do seu eterno país africano. «De temperos finos esta Cachupa faz-se de mormacentas chamas e doce embalo de viagem, conjuga de forma sublime a escola do rock de Seattle com sons crioulos». É assim que o Homem da morna alternativa caracteriza este seu novo projeto que nos oferece um Cabo Verde embrulhado numa canção de autor, psicadélica e introspetiva, na qual o artista quase que se emociona a contar histórias da família e peripécias do velho que bebia demais ou da sua paixão por uma garrafa de água ardente, provocando muitas gargalhadas ao público que o aplaudiu do início ao fim  de um concerto curto, simples e muito bonito.

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Poucos minutos depois, e com a sala Manoel de Oliveira completamente lotada, surge a tão aguardada banda da noite. Instalados numa espécie de arena iluminada por dezenas de holofotes e LED´s em redor, bem ao estilo da saga Star Wars, o quarteto lança-se no Universo de Mitra começando com o single «Pela Boca» e logo de seguida «Era Matá-lo». À primeira vista, a banda não alterou a sua imagem de marca – uma longa carpete antiga suporta o peso dos vários fios e instrumentos. Fábio Jevelim nas teclas, Makoto Yagyu no baixo e a dupla Hélio Morais e Joaquim Albergaria a partilhar os pratos e a bateria siamesa. Mas assim que se ouve os primeiros temas de Mitra, percebe-se que é um disco mais físico e rítmico, com um trabalho de depuração que era quase inexistente no anterior Clarão, ou até mesmo em Paus, as nítidas percussões e a predominância vocal – «Olhos de Asma» e «Água de Rosas» são os únicos temas instrumentais do disco – levam-nos a querer dançar ou bater o pé sem parar. Paus já não se parecem com uma banda de garagem nem fazem jus ao nome informal do novo disco. Pelo contrário, estão mais aprumados. São pura performance. Ao fim da quarta música, Hélio fala pela primeira vez ao público: «Obrigado por nos ajudarem a esgotar a sala» e seguem de imediato, sem perder a pujança, para o tema «Outra Coisa», dedicado a quem os ouvia e a mostrar que PAUS são outra coisa, são “mitra”. Tal como a própria palavra carrega em si vários significados, Paus também são muita coisa ao mesmo tempo. Não vale a pena tentar definir o grupo apenas como uma banda de rock, post-rock, tecno, dub ou eletrónica, a música do quarteto dá azo às mais diversas interpretações. PAUS são tudo o que cada um de nós achar que são, sem rótulos ou etiquetas definidas, são o que dão, são o que fazem. PAUS são as grooves, texturas e melodias de Makoto, são a precisão dançante dos dedos de Fábio nas teclas, são a força das mãos, pés e braços de Hélio e Joaquim, são a voz de todos. No disco Mitra está presente uma ideia de personalidade tão grande em todos os instrumentos que, em certo momento do concerto, voava um prato, voavam as baquetas do Albergaria, voavam os cabelos do Morais. O público, eufórico, abanava o pé, abanava o tronco, batia palmas, pedia mais. Mitra é o culminar de vários meses de trabalho em estúdio, explica Yagyu, que aproveitou a deixa para anunciar a after party que se seguiria na discoteca Lux Frágil. «É por isso que estamos aqui numa bolha e vocês estão também nessa bolha», finaliza.

Ao fim de alguns temas – ora melódicos, ora ruidosos –  e sem grande suspense, Hélio Morais anuncia o encore e terminam com «Aquedutos» e «Deixa-me Ser», tema que ganha força com o verso «No São Jorge toda a gente se levanta», convidando o público a dançar como deveria ter sido todo o concerto. Por último, «Mó People», uma das melhores músicas do disco, com ou sem «a camisa aberta».

Os concertos de apresentação do novo disco seguem-se dia 26 de fevereiro no Centro Cultural de Ílhavo; dia 27 no Teatro das Figuras, em Faro; dia 5 de março na Escola de Artes e Ofícios de Ovar e dia 11 no Festival Tremor, em Ponta Delgada.

Fotos: Rodrigo Anacleto

La Bohemie.

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