Do canto de Pessoa à garagem dos Orwells | Super Bock Super Rock

Começou a 23.ª edição do Super Bock Super Rock, com os cabeça de cartaz Red Hot Chili Peppers a esgotar o primeiro dia do festival há meses. Já não há volta a dar, o rock chegou ao Parque mesmo para ficar. Com quatro palcos distribuídos dentro do recinto, uma zona lounge com redes suspensas para descansar e muitos stands de ativação de marcas, milhares foram os visitantes que se passearam de gelado na mão e chapéu de palha na cabeça entre o rio, o Pavilhão de Portugal e a Meo Arena. Alexander Search a assumir o heterónimo de Fernando Pessoa, Minta and The Brook Trout e a sua Americana, The Orwells a tirar o rock da garagem, The New Power Generation e o tributo a Prince, Kevin Morby e o seu amor pela cidade e a música e, por fim, os Throes + The Shine a provar que o “rockuduro” até é fixe.

 

Cabelo lambido e apanhado, óculos pequenos e redondos, casaca comprida, colete justo e cravo branco à lapela. Por breves momentos, quase que víamos subir ao palco Fernando em Pessoa, mas era apenas Salvador Sobral a assumir criteriosamente o seu personagem – ou neste caso, o seu heterónimo. Alexander Search foi um dos vários heterónimos criados pelo poeta e escritor português Fernando Pessoa. Hoje, serve igualmente de nome ao novo grupo e disco do pianista e compositor Júlio Resende, que encontrou naqueles poemas uma carga adolescente, juvenil, de rebeldia. Toda a ficção à volta da biografia está em construção, como acontece com Pessoa e os seus heterónimos. A este projeto de rock eletrónico, junta-se a maravilhosa voz de Salvador Sobral. Inspirado pelo imaginário de Pessoa, Júlio Resende envolve o universo da banda numa ficção e assume também ele um heterónimo – Augustus Search – que faz a direção musical, compõe, toca piano e sintetizadores. Mas todos os outros elementos assumem de igual forma personagens fictícias: Salvador Sobral é Benjamin Cymbra, canta e traz na sua voz a garra rock n’ roll do passado, as angústias do presente e as esperanças do futuro; Daniel Neto tem uma guitarrada ainda mais cortante e espacial ao assumir o papel de Marvel K.; Joel Silva já foi baterista de jazz, agora é Mr. Tagus, e tem na música e groove de África uma das suas maiores riquezas; e, por fim, cabe a André Nascimento a personagem Stg. William Byng que comanda a vertente eletrónica. Ali, sob a pala do Pavilhão de Portugal, a poesia do século XX tornou-se rapidamente em indie-pop do século XXI, esgalhas eletrónicas e rock assumido. Com grandes referências no jazz português, Júlio Resende traz para a composição da sua música canções com pouco tempo, com garra e desapego. O álbum Alexander Search foi editado há um mês e apresentado em primeira mão no Palco EDP, local ideal para este cruzamento de sonoridades, com o sol a querer esgueirar-se por entre as estruturas metálicas. Aliás, «A Day of A Sun» voou literalmente dos céus – como folhas que caem de um século longínquo – para o público. Esse, interroguei-me, não era suposto estar a lotar o espaço?, talvez por se tratar do único dia esgotado e estarmos perante o menino querido dos olhos dos portugueses. Esse, responderam-me, só veio para ver os Red Hot. 

Já com o sol a querer ausentar-se do seu dia de trabalho, ali, no Palco LG, outro exemplo de que a música e a literatura são essenciais à vida – e que muito provavelmente não sobrevivem uma sem a outra – é a banda Minta & The Brook Trout. Francisca Cortesão assumiu o nome de um personagem da obra “Rumo ao Farol”, de Virginia Wolf – Minta. Mas como nenhum personagem é herói sozinho, foi buscar o nome The Brook Trout ao álbum Michigan, de Sufjan Stevens. Em palco, são o elenco perfeito para o enredo certo. E se Minta é Francisca, os The Brook Trout são Bruno Pernadas na guitarra elétrica, Margarida Campelo na voz e teclados, Mariana Ricardo no baixo e guitarras e Tomás Sousa na bateria e percussão, elementos essenciais para trazer uma nova dimensão aos arranjos das suas músicas. Depois do terceiro álbum de originais Slow, surge Row, um EP exclusivamente digital de canções inéditas como «So This Has To Do», «Mild-Mannered Men» e «Tropical Resort». Francisca vai assumidamente buscar as suas influências à música de Elliot Smith, Laura Veins e Laura Marling, mas os temas sobre relações humanas não mudaram assim tanto, contudo, as letras são mais cuidadas e a abordagem evoluiu. É um privilégio assistir a um concerto de gente que faz música tão entusiasmante, com uma ginga de dança, enquanto se assiste ao pôr-do-sol.

Os The Orwells tiraram o rock da garagem e trouxeram-no até ao Palco EDP. Seguindo as pisadas de bandas como Stone Temple Pilots e Smashing Pumpkins, o quinteto norte-americano estreou-se em Portugal para mostrar as guitarras pesadas e os vocais rasgados dentro do espetro pós-grunge, rótulo que a banda assume com atitude, tal como qualquer banda o assumiria na época de 1991. Na bagagem, Dominic Corso (guitarra), Grant Brinner (baixo), Henry Brinner (bateria), Mario Cuomo (voz) e O’Keefe (guitarra), trazem três álbuns – Remember When (2012), Disgraceland (2014) e Terrible Human Being (2017) –, apesar de serem apenas uns jovens adultos que começaram por escrever letras e fazer músicas em casa, numa garagem. No último disco Terrible Human Being o grupo mostra que tem o elemento chave para fazer sucesso, muito além de poses e sonoridades – boas canções – embora a sonoridade perpetrada pelo quinteto seja assumidamente retro. The Orwells surgem com apreço pela diversidade, com canções mais nervosas como a «Buddy», cheia de guitarras, convivem com espécimes mais melódicas, caso da «Hippie Soldier», que imita o clima de algo que poderia ser um lado B de David Bowie no início dos anos 1980, ou, mais precisamente, uma faixa de Stone Temple Pilots. Em palco são um grupo dinâmico e presente, mas as canções são, sem dúvida, o ponto forte, com uma pequena dose de pop inestimável. Há momentos com mais sustância, muito próximo de Pixies, como é o caso da canção «Black Francis» que tem guitarras e vocais doentios dentro da mesma medida. E em palco funciona. «Heavy Head» tem guitarras que nunca mais acabam, «Ring Pop» assume uma boa linha melódica, «Last Call (Go Home)» tem cheiro de Powerpop e a última canção, a psicadélica «Double Feature» exibe uma duração além dos sete minutos, com mudanças de clima, melodias, andamentos, tudo como costumava ser – há 20 anos. Sim, The Orwells são adultos na casa dos 20 que tocam músicas que se tocava há 20 anos. Novidade? Nenhuma. Mas são bons e isso basta.

Os grandes nunca morrem. É assim que gosto de pensar cada vez que alguém parte para nunca mais voltar. Um ano depois da morte de Prince, é fundamental recordar e homenagear o ícone da música pop. E foi precisamente isso que a mítica banda que o acompanhou durante uma vida nos trouxe no primeiro dia do Super Bock Super Rock, apesar do público que ali se encontrava não saber muito bem o que esperar. Os The New Power Generation foram a primeira banda a atuar no palco principal, acompanhados por uma das vozes da soul mais interessantes dos últimos tempos, a do norte-americano Bilal. É curiosa a forma como mistura nos seus discos o jazz e a eletrónica, um pouco de hip-hop e música contemporânea, tal como fazia o próprio Prince. Aliás, o sucesso do artista explica-se, talvez, pela forma como sempre se desafiava a si próprio, procurando incessantemente novas sonoridades. A química que tinha com os seus músicos era uma parte fundamental desse processo de inovação. A banda que marcou uma nova fase da carreira do pequeno génio formou-se em 1990 e no ano seguinte estreou-se em grande com o disco Diamonds and Pearls. Desde «Purple Rain» que Prince não tinha um disco tão bom e tão aclamado pela crítica, mas logo no ano seguinte voltou a editar com os NPG o estrondoso Love Symbol Album. Faz também sete anos que aconteceu um dos momentos mais épicos do festival Super Bock Super Rock, no Meco, quando Prince deu um concerto inesquecível e convidou a fadista Ana Moura para um dueto. Agora, o momento repetiu-se, mas desta vez sem grandes surpresas. Prince não pode ser substituído, ainda assim Bilal deu voz a grandes êxitos dos anos 90 como os «I Wanna Be Your Lover», If I Was Your Girlfriend» e «The Beautiful Ones». Já Ana Moura, convidada pela própria banda, subiu ao palco sorrateiramente para cantar «Little Red Corvette», ainda que emocionada, ainda que forçada. Uma das novidades do festival, este ano, foi precisamente no palco principal – uma estrutura suspensa sobre a Sala Atlântico, com leds, que apesar de não melhorar a acústica da sala, dá para deslumbrar os olhos. Esta instalação é da responsabilidade do projeto criativo e colaborativo de arte e arquitetura FAHR 021.3.

De volta ao Palco EDP, de volta à cidade da música. Sem dúvida que City Music é o trabalho mais maduro, consistente e interessante de Kevin Morby. Sim, as canções de Still Life (2014) continuam a ser maravilhosas e marcantes, assim como as de Singing Saw (2016), mas o álbum City Music traz uma abordagem sonora típica de quem evoluiu na forma como pensa a sua música. E isso é sinal de amadurecimento e consistência. Morby melhorou o seu folk rock e o último disco tem ainda mais conceito – aborda a solidão e a forma como as pessoas se relacionam com as cidades onde vivem e com as pessoas com que se cruzam. Como se sentirão essas mesmas pessoas que vivem sozinhas num universo completamente diferente do mundo que existe lá fora? «Come To Me Now», single do City Music, impressiona precisamente por essa atmosfera esvoaçante que ganha ainda mais densidade do meio para o final, não fosse uma canção vista da perspetiva de uma mulher solitária, que não gosta de sol e espera pelo surgir da lua. Poético, não é? Essa mulher é Mabel, personagem de «Tin Can», tema que possui progressões fabulosas até se chegar ao longo folk de «Night Time». Depois da sua passagem pelo festival Vodafone Mexefest no ano passado, Kevin Morby regressou com a sua banda e os novos temas foram muito bem recebidos pelo público, porque a introversão da sua música comunica connosco, nunca perdendo o seu indie e rock americano, com a solitude típica do folk desértico. «1234» é uma espécie de tributo aos Ramones, com o nome a fazer referência à contagem do tempo antes de cada faixa, «Dry Your Eyes» possui uma ingenuidade quase soulful e uma sensibilidade instrumental incrível, um solo bonito, criando uma atmosfera intimista. Já «Aboard My Train» dá a impressão de que estamos a ouvir um disco completamente diferente, tamanha é a diferença de timbres e musicalidade. As músicas de Kevin Morby, como as montanhas e os vales que as povoam, são profundas e majestosas, e desafiam o mundo além delas. «Dorothy», uma das composições que fazem parte do álbum anterior, Singing Saw, é uma canção sobre viajar – não fosse Kevin Morby um apaixonado assumido pela cidade do Porto – e continua a ser uma das mais bonitas de toda a sua coletânea, juntamente com «Beautiful Strangers», uma música de protesto, na qual o artista texano aborda problemas que preocupam o mundo – como a violência provocada pela posse de armas, a morte de Freddie Gray, os ataques em Orlando ou Paris. Kevin Morby é assim, dócil e preocupado, e procura sempre encontrar conforto diante do medo, numa atmosfera gentil e meditativa, criada por aquela voz calma mas firme, oferecendo sempre o seu amor àqueles que mais precisam de ser amados.

É possível juntar de forma harmoniosa o rock e o kuduro? É e os Throes + The Shine são prova disso. De duas bandas de ritmos diferentes, nasceu um projeto inédito – com o nome das bandas anteriores – nos qual se casam a água e o azeite numa apoteose impensável, porque na música há lugar para a poligamia e casamentos que fogem às regras do politicamente correto. O grupo foi a última atuação do Palco LG by SBSR.FM, no qual Dinon Shine (voz), Igor Domingos (bateria) e Marco Castro (guitarra) mostraram o que é isto do “rockuduro”. E o público que o diga, esse que não parou de dançar e pular do início ao fim do concerto. Os temas do novo álbum Wanga têm uma música contagiante e o facto de terem tido colaborações com artistas da Argentina, Colombia, Congo e Portugal trouxe um leque de sonoridades que os outros dois não tinham. Rock? Kuduro? Não interessa, é tão bom que os pormenores são irrelevantes.

Sem dúvida  que os Capitão Fausto, o The Legendary Tigerman e os Red Hot Chili Peppers foram os reis deste primeiro dia do Super Bock Super Rock, por isso o melhor é mesmo ler a reportagem AQUI.

 

La Bohemie.

One thought on “Do canto de Pessoa à garagem dos Orwells | Super Bock Super Rock

  1. Q belo texto. Eu não fui, por valores mais altos, férias, sim as férias falaram mais alto, já foram ajustadas pelo Alive, não dava para ser pelo sbsr.
    Fiquei com a vontade de para o ano n falhar e ir….. Tenho q ir, n vou desço o meco, e tenho q voltar a ir em versão cosmopolita.

    Mas agora apenas para elogiar o texto, que está bem escrito, formatado, e acima de tudo inspirador e nos leva ao ambiente do festival.
    Um texto que nos faz sentir q devíamos lá ter estado e nos faz querer lá estar, prova o quando bem foi escrito e nos fez sentir parte do festival.

    Parabéns

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