Do Convento do Loreto para a Herdade do Cebolal.

Nem só de música sacra e erudita se faz o Terras Sem Sombra. É necessário experimentar os passeios ao ar livre, sentir o contacto com o meio natural, percorrer os caminhos históricos e deixar-se envolver nas maravilhosas estórias do historiador José António Falcão, para se perceber que o TSS é um festival bastante peculiar e um tanto familiar. No passado dia 26 de março realizou-se o terceiro encontro para a salvaguarda da biodiversidade em Santiago do Cacém, com o intuito de assegurar a continuidade do Convento do Loreto.

 

Convento Nossa Senhora do Loreto – um caminho para Compostela

Foto: Alfredo Rocha

A Paisagem Cultural em torno do Convento do Loreto é um local privilegiado de contacto com a natureza. A cerca de 2,5 km de Santiago do Cacém e em pleno caminho de peregrinação para Compostela, está hoje entregue ao abandono, encontrando-se em avançado estado de ruína e, apesar dos muitos esforços para o preservar, serve actualmente de estábulo. Na vasta mancha de montado que envolve o convento, por outro lado, regista-se a decadência de muitos sobreiros. O sobreiro é indispensável para a economia local, para a formação do solo, para a composição da paisagem e no suporte de todo um ecossistema com extraordinária biodiversidade. Os sobreiros, para além da cortiça, suportam outras actividades económicas ligadas ao montado e sobreiral e um conjunto de espécies únicas com estatuto de protecção. Com o objectivo de inverter a situação, o Terras sem Sombra propõe que o Loreto se torne um sítio facilmente acessível e seguro, a partir de Santiago do Cacém, a todos os que gostam de caminhar. E promove também, a salvaguarda do montado de sobro, incidindo num aspecto fulcral da sua continuidade – a renovação. Para tal, a comunidade de Santiago envolveu-se no domingo de manhã na plantação de várias dezenas de sobreiros, provenientes da Mata Nacional de Valverde, em Alcácer do Sal, ajudando a salvar a mata do antigo convento de Nossa Senhora do Loreto. O Professor Fernando de Pádua – o cardiologista considerado o “Pai da Medicina Preventiva em Portugal” e grande defensor do caminho de Santiago de Compostela – acompanhou-nos nesta actividade e veio juntar a sua voz à defesa do património cultural e natural do Convento do Loreto.

O Convento de Nossa Senhora do Loreto da ordem franciscana terá sido construído na segunda metade do século XV por D. Catarina de Noronha, mulher de Pedro Pantoja, comendador de Santiago do Cacém. O cenóbio foi edificado no local onde existia uma pequena ermida, já então dedicada à padroeira. Construído num pequeno vale, hoje é uma ruína que impressiona pelas suas dimensões, contudo este complexo conventual destinava-se a receber uma comunidade franciscana de 12 frades, tendo as suas estruturas sido remodeladas e ampliadas durante o reinado de D. Manuel. O espaço do convento incluía ainda um templo de nave única, com quatro capelas laterais. Do convento pouco resta, uma vez que depois da extinção das ordens religiosas, em 1834, o edifício foi vendido a particulares, cuja incúria levou à sua progressiva ruína. Alguns dos elementos decorativos manuelinos encontram-se depositados no Museu Arqueológico de Sines.

 

Herdade do Cebolal – uma tradição que vem do século XIX

A pouco mais de 17 km desta cidade histórica encontra-se a Herdade do Cebolal, a empresa vitivinícola mais antiga da Costa Alentejana a produzir vinhos desde meados do século XIX e a engarrafar vinhos certificados desde os anos quarenta. Luís Mota Capitão, a face e o bigode mais visível deste projecto familiar, apresentou-nos os vinhos e as renovadas instalações da adega em conjunto com a sua mãe, Isabel Mota Capitão. Mas comecemos pelo início da história desta propriedade e família bastante conhecidas na região. A Herdade do Cebolal está a funcionar em Santiago do Cacém há cerca de 150 anos. O trisavô de Isabel, Caio de Loureiro, era professor em Cebolais de Cima, uma aldeia perto de Castelo Branco. Quando se muda para Santiago casa-se com Helena, a sua trisavó. Cebolais terá estado, assim, na origem do actual nome da Herdade. No final do século XIX, apostou na actividade agroindustrial e tornou-se num lavrador muito dinâmico, plantou uma vinha, construiu uma adega, semeou campos de trigo e criou uma moagem em Santiago do Cacém, no antigo Largo do Caio. Conseguiu passar a paixão pela viticultura às gerações seguintes e, hoje em dia, Isabel Mota Capitão é a quarta geração de produtores de vinho ao lado do seu filho. Assumindo a responsabilidade da quinta geração, Luís desde cedo quebrou a tradição da medicina na família. Dedicou-se de alma e coração ao campo, às vinhas e aos lagares, e hoje assume-se como o enólogo da Herdade do Cebolal.

A principal actividade desta família é a viticultura e vinicultura, a produção de vinho e a sua comercialização tanto a nível nacional como internacional – neste momento exportam para os EUA, Alemanha, Áustria, Bélgica, Espanha, Polónia – mas também têm um núcleo de ovelhas e carne, uma área de montado misto de sobro e pinheiro-manso. Nos 23 hectares de vinha apostam na qualidade de produção de três gamas de vinhos distintos e elegantes – Vale das Éguas, Herdade do Cebolal e Caios. A proximidade do Atlântico e os seus vales verdes de solos complexos de xisto e calcário, faz com que o seu clima seja mais temperado e frio do que no resto da região, o que contribui para um terroir único. A família Mota Capitão organiza igualmente inúmeros eventos, workshops, actividades e visitas ao património museológico e histórico local, provas vínicas, almoços e jantares vínicos, usando exclusivamente produtos regionais. Uma visita (e prova de vinhos, claro) a não perder.

Foto: Alfredo Rocha

Fotos: Alfredo Rocha

La Bohemie.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *