Ferenc Liszt, o compositor que revolucionou a música húngara | Terras Sem Sombra

O arranque da 14.ª edição do Terras Sem Sombra foi protagonizado pelo coro de Câmara húngaro Vaszy Viktor, dirigido pelo maestro Sándor Gyüdi, que interpretou peças de compositores do século XIX e alguns contemporâneos. No dia 17 de fevereiro, o público lotou a Igreja Matriz de São Cucufate, em Vila de Frades, para assistir ao concerto de abertura do festival de música sacra sob o mote “O Vos Omnes: Música Sacra Húngara dos Séculos XIX-XXI”.

 

Há mais de duas décadas que Sándor Gyüdi está ligado à Orquestra Sinfónica Nacional de Szeged – uma das melhores orquestras líderes da Hungria, famosa pelo seu som brilhante e homogéneo, especialmente para a realização do reportório de ópera –, e há trinta temporadas que lidera o coro Vaski Viktor como maestro titular. No reportório do Coro, a música coral a capella tem uma presença muito importante sendo que obras corais de Béla Bartók, Zoltán Kodály e das gerações que se seguiram trouxeram um reconhecimento internacional à cultura musical húngara. Mas se há figura marcante na música húngara e que revolucionou a forma como entendemos a música em todas as línguas, é o pianista-compositor Ferenc Liszt. O maestro Sandor Gyüdi não se esqueceu dele e conquistou a Vidigueira numa noite memorável.

Ferenc Liszt foi uma das figuras mais importantes da história da música por diversas razões. E se continua a ser considerado um dos melhores pianistas desde que há memória, revolucionando a sua técnica, como compositor foi um dos grandes inovadores na época do Romantismo e muitas das suas últimas obras previram as mudanças que ocorreriam no século XX. Abraçado às ideias musicais demasiado avançadas naquela época, muito do legado musical do compositor húngaro Franz Liszt tem sido, não raras vezes, descartado como trivial ou simplesmente vistoso, contribuições mais ou menos periféricas para a cultura europeia do século XIX. Mas Liszt era um compositor convencional de um modo que a maioria dos seus críticos não reconheceu, atacando-o sem piedade. A História, no entanto, encarregou-se de apreciar o seu valor, não só como um virtuoso do piano, mas também como um dos melhores compositores de todos os tempos. Como se se tratasse de uma árvore genealógica, cujos ramos são fortalecidos pela paixão que promove a música – mais que a relação sanguínea –, a genialidade de Liszt conseguiu atravessar as fronteiras temporais através de três gerações distintas dos seus discípulos. O domínio de Liszt das tradições de fantasia e sonata, as configurações meticulosas de textos que vão desde versos eróticos até fracções da liturgia católica, ou até mesmo a notável autoconsciência que demonstrou em muitas das suas peças mais divertidas, fizeram dele não só um mestre do romantismo, como um impressionista primitivo, ao estilo de um precursor pop pós-moderno. Mais de duzentos anos depois da sua morte, a figura de Franz Fiszt permanece imaculada pela passagem do tempo. No concerto inaugural de mais uma etapa do festival Terras Sem Sombra, o prestigiado pianista e compositor húngaro foi recordado com grande destaque.

Franz Liszt ajudou a definir o romantismo, mostrou o papel do piano no palco e em casa e, o mais importante, como a música passou a funcionar para os alfabetizados. O que podemos ainda aprender e tirar proveito de um olhar mais profundo e abrangente sobre Liszt e a sua carreira? Em primeiro lugar, Liszt deve lembrar-nos que a nossa abordagem à música não deve depender de alguma construção de nacionalidade que ajude a defender a popularidade de um compositor. As reputações na música clássica depois de Beethoven parecem cada vez mais dependentes dos entusiasmos nacionalistas. Recorremos os húngaros para interpretar Bartók, os russos Tchaikovsky, o inglês Elgar, o francês Debussy e os americanos Copland e Ives. Liszt desafia essa categorização fácil. O seu alcance como artista a compositor transcendeu as categorias nacionais e lembra as limitações das apropriações e estereótipos nacionalistas. Depois, a arte de Liszt superou todos os géneros. No coração da sua música para piano foi a improvisação, uma arte tristemente perdida naquilo que agora chamamos de música clássica. A notação na sua música de piano procurou espelhar uma arte que foi espontânea e amarrada a um momento de performance. As suas elaborações e fantasias para o piano, baseadas nas obras de ópera de outros artistas, sugerem muitas maneiras de se adaptar e alterar a música de que gostamos e desejamos lembrar. No concerto de sábado, o maestro Sándor Gyüdi seguiu o exemplo de Liszt libertando-se de uma ideologia delirante de fidelidade para textos históricos, adaptando a música antiga e a nova de forma a alcançar uma geração de ouvintes acostumados a novos sons e a um atual ambiente acústico. Liszt fez isso usando apenas um piano e, ao fazê-lo, ajudou a criar uma audiência entusiástica de espetadores. Em terceiro lugar, Ferenc Liszt foi pioneiro em tornar a música numa forma de arte ligada à literatura, pintura e narração. A sua noção de que a música instrumental pode e deve evocar personagens, tramas, paisagens, ideias e emoções lançou as bases para o que agora damos por certo como a semântica e a retórica musicais que encontramos na música feita para a televisão ou cinema. A magia de Liszt era a certeza de que só a música bastava para estimular a imaginação do público. Por último, e não menos importante, Franz Liszt foi um inovador incansável que nunca se contentou em repetir-se. Sem as experiências do compositor no uso da harmonia, da sonoridade e da forma musical, muito do romantismo e do modernismo tardios – particularmente associados a Wagner – seria impensável. Vivemos num ambiente muito segmentado, onde os clássicos e os populares são ainda segregados, mas Liszt procurou sempre alcançar a originalidade e integrar diversas influências numa forma de arte musical expressiva sintética e sincrética.

Não se pode imaginar uma figura mais protectora, dotada, generosa e versátil na história da música, que procurou sempre manter vivo o passado e vincular a tradição com o contemporâneo. De Liszt podemos aprender que meras imitações e repetições sem fim do mesmo nada farão e condenarão uma forma de arte a uma forma de morte viva. Virtuoso por excelência, ele desprezava o mero atletismo da música – a obsessão da mente, a precisão, os truques circenses e, acima de tudo, a afectação arbitrária na renderização da música, atributos que passaram a definir a nossa vida de concertos contemporâneos. Há que ressalvar que Liszt foi o primeiro compositor-intérprete a encontrar uma maneira, como maestro e pianista, de alcançar um público amplo e tornar a música acessível e agradável a mais do que uma elite de conhecedores autodenominados. Ele fez isso ao ligar a música aos interesses mais amplos do público, na poesia e na prosa, na política, na história, na arte e na religião. Ele estabeleceu as bases da vida musical moderna da Hungria. Por isso, depois de assistirmos ao concerto de abertura do Terras Sem Sombra que incluiu no alinhamento compositores da atualidade, como Péter Zombola, Máté Bella ou Miklós Csemiczky, o que podemos e devemos aprender com Liszt é precisamente o que significa ser músico e ser, como músico, no centro da vida política e cultural da comunidade, e fazê-lo sem medo, coragem e generosidade, porque ele estabeleceu um exemplo que exige ser, verdadeiramente, um cidadão do mundo como compositor e intérprete, como alguém que quebrou as regras e convenções para traçar novos caminhos. A diferença é que, em 1911, Liszt tornara-se demasiado ridicularizado. Hoje, não é mais controverso, apenas negligenciado.

 

Fotos: Arlindo Homem

 

La Bohemie.

 

One thought on “Ferenc Liszt, o compositor que revolucionou a música húngara | Terras Sem Sombra

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *