Fernando Lopes-Graça: o maestro de almas | Terras Sem Sombra

Serpa acolheu no passado dia 3 de março, no Musibéria – Centro Internacional de Músicas e Danças do Mundo Ibérico –, a estreia mundial das «Dez Canções Populares Húngaras», de Fernando Lopes-Graça. Num concerto único, o festival Terras Sem Sombra colocou lado a lado artistas lusos e húngaros: a soprano Cátia Moreso e os cantores e bailarinos tradicionais Áron Vára, Béla Szerényi e Hanga Kacksó, acompanhados por Nuno Vieira de Almeida ao piano.

 

Um dos pontos altos da 14.ª edição do Terras Sem Sombra foi a estreia mundial do concerto «Longe, Mas Perto: As Dez Canções Populares Húngaras, de Fernando Lopes-Graça». O programa incluiu também canções populares de Tradição Magiar, interpretadas pela meio-soprano portuguesa Cátia Moreso, os cantores tradicionais húngaros Áron Várai e Hanga Kacsó, ao lado de Béla Szerényi (sanfona, flauta e tárogató) e Nuno Vieira de Almeida (piano). Infelizmente, grande parte do espólio de Lopes-Graça continua inédito, não tendo nunca sido tocado em concerto ou gravado. É o caso desta obra, de 1954, onde os temas tratados alternam entre o humor, o sarcasmo ou a nostalgia e o compositor desenvolveu-os com notável expressividade. Uma aproximação às lindíssimas canções originais, tal como eram cantadas na Hungria rural dos séculos XIX e XX, tornaram o concerto único. Mas quem foi esta figura incontornável da música portuguesa?

«Pouca gente conhece verdadeiramente a sua música, que nem sempre é fácil, mas é infinitamente variada e interessante», começa por dizer Nuno Vieira de Almeida. Fernando Lopes-Graça foi não apenas um grande compositor, mas também um grande músico, pianista, maestro, professor, escritor e ideólogo, constantemente preso pela polícia política da altura devido à sua personalidade interventiva e desalinhada com o regime. A liberdade e a verdade foram as duas grandes causas pelas quais Lopes-Graça sempre lutou, mas a sua arma e instrumento por excelência foi, sem dúvida, o piano. Dedicou-lhe ao longo da sua vida, desde as primeiras composições até quase à sua morte, uma grande parte da sua produção musical. Compôs para piano solo, piano a quatro mãos, dois pianos, piano para orquestra ou integrou o piano em conjuntos vocais e instrumentais. Fernando Lopes-Graça compôs em praticamente todos os géneros e formas, desde a música sinfónica à canção, da música de câmara à música coral. Paulo Ferreira de Castro destaca, de entre a extensa e variada obra de Lopes-Graça, as numerosas harmonizações e adaptações de canções populares, as várias canções políticas, as inúmeras canções para voz e piano sobre textos de importantes autores portugueses. Através das mãos do pianista Nuno Vieira de Almeida e da voz de Cátia Moreso, entendemos que as as características principais do estilo de Lopes-Graça são o ritmo impelente e ardente e o uso de harmonias construídas à base de intervalos agregados. A textura pode ser fina ou complexa. A sua música raramente estagna e os temas geralmente desenvolvem-se até atingirem um clímax tenso ou tempestuoso que rapidamente se desmorona. O carácter geral de uma obra tanto pode ser energético como plácido ou etéreo. Ideias novas são arriscadamente apresentadas num ritmo frenético ou, no extremo oposto, apresenta-se a repetição de um tema de uma forma prolongada, mas com sucessivas e ligeiras transformações extremamente imaginativas e originais. Estas características são complementadas por uma fantástica variedade rítmica, com uso de poliritmia, o que leva a frequentes mudanças de compasso e finalmente ao abandono das linhas deste compasso. No campo harmónico, Lopes-Graça prefere uma construção axial articulada com uma estrutura diatónica ou modal.

«Paris, março de 1939. Enquanto a marcha das tropas nazis se fazia ouvir por toda a Europa, a capital francesa ainda acolhia artistas e intelectuais exilados de toda a parte. Neste ambiente cosmopolita, à beira da rutura, encontra-se também o compositor português Fernando Lopes-Graça. Um acaso feliz leva-o à presença daquele que considera o seu mestre, o intransigente compositor húngaro Béla Bartók. Para Lopes-Graça a ocasião vislumbra-se como uma oportunidade única para mostrar a Bartók as suas partituras.» No filme Crónica Parisiense é possível compreender que o primeiro contacto do compositor português com a obra de Bartók decorreu aquando da sua estadia em Paris. Escutou várias peças do compositor húngaro – incluindo as primeiras audições de algumas delas – e fascinou-se com a capacidade de Bartók em não se restringir a regras ou limitações no seu processo composicional, assim como a universalidade da sua obra. Segundo Teresa Cascudo, Lopes-Graça assumiu Bartók como o seu principal modelo no tratamento da música tradicional portuguesa e viu na utilização imediata do material tradicional, na invenção paralela à música tradicional e na assimilação inconsciente do idioma harmónico da canção tradicional, os três métodos principais usados por Bartók, integrando-os no seu próprio trabalho como um exemplo a seguir. Contudo, António Victorino de Almeida alerta para o facto de Fernando Lopes-Graça não utilizar o material de recolha da mesma forma que Bartók – como foi, não raras vezes, acusado –, preferindo canalizar o património folclórico recolhido para o seu vasto repertório de cantares e para algumas obras, mas não para as de maior envergadura. Teresa Cascudo suporta o ponto de vista referido, afirmando que Lopes-Graça seguiu mesmo o caminho oposto do compositor húngaro. Segundo a referida autora, enquanto Bartók usava as canções tradicionais como uma aproximação às correntes composicionais com que se identificava, Lopes-Graça valorizava sobretudo as canções que apresentassem maiores irregularidades rítmicas e métricas na melodia e que se afastassem mais da dualidade modal maior e menor. Eram estas canções que o compositor considerava serem as mais valiosas do cancioneiro e sobre as quais preferia trabalhar.

A linguagem musical de Fernando Lopes-Graça é, inevitavelmente, marcada pelo seu caráter nacionalista e impossível de dissociar de referências como Debussy, Ravel, Falla, Bartók, Stravinsky ou da escola de Schöenberg. O próprio compositor luso tem consciência de que a música destes compositores, assim como as referências para si incontornáveis de Bach, Beethoven ou Schubert, acabaram por influenciar a sua escrita ao longo de todo o seu processo musical – também ele mutável em função das referências que mais o influenciam em dado momento da sua vida. Quanto a Bartók, como refere António Victorino de Almeida, a admiração de Fernando Lopes-Graça pelo compositor húngaro parece ser ilimitada, e está certamente no exemplo de Bartók a origem de todo o trabalho que o compositor português desenvolveu com o folclore português – cujo principal objetivo seria, nas palavras do referido autor “conduzir o povo a conhecer-se a si mesmo e a despertar para uma realidade isenta de fatalismos e seculares inibições”.

«A música é a religião do futuro», dizia Fernando Lopes-Graça, um dos maiores nomes da arte portuguesa do século XX. Foi sem dúvida o mais profundo utilizador do folclore português, na esteira de um Bartók na Hungria, e a sua vasta obra e linguagem têm influenciado ainda hoje vários compositores, nomeadamente a nível da escrita coral e da utilização dos materiais populares. Lopes-Graça foi um homem de vanguarda e um humanista. Consideravam-no um homem demasiado avançado para o seu tempo, mas foi autor de uma obra profundamente sensível de que pouco se fala, uma obra musical e literária que “é rica e complexa, tecida de múltiplos laços em diálogo com o seu tempo histórico, enraizada no passado, mas, sobretudo, com os olhos no futuro, em compromisso inabalável de cidadania”. Homem extremamente humano, delicado e terno, Fernando Lopes-Graça é um tesouro nacional que deve ser mostrado ao mundo, e num tempo que é nosso, em que os valores civilizados vacilam ao relativismo, importa conhecer a sua obra, compreendê-la e partilhá-la. Graças ao esforço da Fundação D. Luís I e da Câmara Municipal de Cascais, as «Dez Canções Húngaras», de Fernando Lopes-Graça vão ser gravadas em disco, pelas mãos de Nuno Vieira da Silva e voz de Cátia Moreso.

Fotos: Arlindo Homem

Obras: Outros Combates Pela História, Teresa Cascudo
As Sonatas e Sonatinas para Piano Solo de Fernando Lopes-Graça, Patrícia Bastos
De Luís de Freitas Branco a Alexandre Delgado, Vânia Moreira

 

 

La Bohemie.