Fragmentos de Kafka, Sensibilidade de Kurtág | Terras Sem Sombra

A 14.ª edição do Terras Sem Sombra terminou em Santiago do Cacém, num ano em que o programa registou quase meia centena de atividades, ao longo de dez encontros, no Baixo Alentejo. No passado dia 30 de junho, a Igreja Matriz de Santiago acolheu o concerto de encerramento do festival, intitulado «Fragmentos Vitais: Kurtág e a sua Circunstância», no qual foram interpretadas obras de Kurtág, Máté, Bartók, Csemiczky, Eötvös e Fekete.

A Hungria foi o país convidado desta edição do Terras Sem Sombra e esta temporada não podia ter terminado de melhor forma. Diretamente de Budapeste para o Alentejo, a soprano Andrea Brassói-Jőrös, o violinista Máté Soós, o pianista Péter Kiss e o clarinetista Péter Szücs foram os grandes protagonistas do último concerto do Festival. Outra presença a assinalar é a do compositor e maestro Gyula Fekete, vice-reitor da Academia Liszt, e autor da última peça do repertório que se ouviu no sábado, «Csárdás», inspirada numa famosa dança tradicional da Hungria. No último programa do Terras Sem Sombra pudemos assistir a uma peça fundamental da criação dos nossos dias, mas muito pouco escutada em Portugal:  Fragmentos de Kafka, de György Kurtág, constituiu o cerne de uma panorâmica da música contemporânea húngara que apresentou, igualmente, obras de Béla Bartók, Péter Eötvös, Miklós Csemiczky, Gyula Fekete e Bella Máté.

Kafka e Kurtág. Esta natural dupla de escritor e compositor comunica um século de modernismo entre versos aliterativos, uma condição espiritual profundamente sentida e um apego à expressão pessoal através de tempos violentamente impessoais. O compositor húngaro Gyorgy Kurtág nasceu em 1926, dois anos após a morte de Kafka, mas as suas sensibilidades e emoções estão interligadas numa das obras mais eficazes de Kurtág, «Fragmentos de Kafka», para soprano e violino. Foram algumas dessas configurações de pequenos trechos dos diários, cartas e cadernos de Kafka que tivemos o privilégio de escutar, pela soprano Andrea Brassói-Jőrös e o violinista Máté Soós.

O escritor checo-judeu de língua alemã, Franz Kafka, requer pouca introdução. Mas Gyorgy Kurtág, um gigante recluso da música europeia contemporânea, já com 92 anos, não é tão bem conhecido. O compositor húngaro foi aluno de György Ligeti na Academia Franz Liszt, em Budapeste, no final dos anos 40 e estudou com Olivier Messiaen e Darius Milhaud durante o ano que passou em Paris, entre 1957-8. O seu corpo de trabalho é relativamente pequeno, mas contém música de superfícies pontiagudas e de feroz compressão emocional. Kurtág é um mestre do aforismo, o conjunto conciso de notas cuja concisão weberniana intensa pode mascarar vastas paisagens cruas e uma desarmante expressão pessoal. Ouvir a sua música é como espiar o oceano através de um buraco da fechadura.

Concluída em 1987, a obra Fragmentos de Kafka é o trabalho mais longo e extenso de Kurtág e uma das composições mais conhecidas e registadas com maior frequência. As origens deste incomum e complexo ciclo musical para soprano e violino solo remontam ao ano do seu exílio em Paris, e foi nesse mesmo ano que Kurtág começou a colecionar fragmentos construídos a partir de frases, aforismos, extraídos dos diários e cartas do autor da Checoslováquia. O resultado são quatro partes, com a duração de uma hora de música de comunicação compacta e de uma honestidade implacável. Imagine-se um compositor agarrar em dez recitais de música puros e resumir a sua essência emocional numa única peça, colocando-a numa série de epigramas estimulantes. Nos últimos dias dediquei-me a ouvir outras músicas de Kurtág e a conhecer outras obras de Kafka, e aquilo que inicialmente me parecia a escuridão da peça, entendo-a agora como uma pureza e extrema clareza do pensamento. Os silêncios dos fragmentos permitem que a música respire e permitem que o ouvinte absorva o seu poder concentrado. A parte do violino não é muito mais fácil do que a voz, porque Kurtág é um compositor extremamente musical. Mas o seu teatro é apenas Beckett: é um teatro de contenção, de mundos ocultos, significados ocultos e emoções ocultas, que emergem inesperadamente e desaparecem sem deixar vestígios.

Toda a obra é composta por 40 fragmentos, muitos deles com poucos segundos, dividida em quatro partes. Cada fragmento usa um pequeno fragmento da escrita de Kafka, e o ciclo, como um todo, oferece-nos pequenos vislumbres das muitas faces do escritor, algumas mais conhecidas do que outras. Há descrições simples, porém evocativas, música numa demonstração interpretativa, onde a voz se torna num instrumento ferozmente humano, enquanto o violino, querendo ser a voz, percorre os caminhos mais complexos da sua personalidade íntima, recorrendo a todos os recursos expressivos e técnicos: glissando, pizicatto, double corde, golpes de arco – expressionismo puro. Com os Fragmentos de Kafka, Kurtág relembra-nos que a música não é apenas espaço horizontal, como a melodia, é também espaço vertical, como a harmonia, é tempo, como o ritmo, e é cor, como o timbre.

 

Fotos: Arlindo Homem

 

La Bohemie.

 

 

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