Guardar a felicidade.

Apanhaste-me de carro já de madrugada e, mesmo sem saberes, levaste-me ao lugar mais bonito desta cidade que me viu nascer, e o destino me quis tirar. Lisboa espera por ti, gravado numa parede e, afinal, percebi que fui eu quem tanto esperou por te voltar a reencontrar num qualquer recanto da minha cidade. Quatro anos depois estavas ali outra vez, à minha frente, como quem salva um marinheiro à deriva nas trevas e desvanece no nevoeiro do mar.

é a tua namorada?

Passaram-se horas entre copos e memórias, conversas e gargalhadas, perguntas sem resposta, olhares de cumplicidade. As ruas enfeitadas de balões e grinaldas, a música cada vez mais alta, as ruas cada vez mais estreitas e eu cada vez mais perdida num passado que nunca foi presente. E tu estavas, como sempre, com aquele semblante triste que denuncia o cumular injusto de incompreensíveis desamores. Durante algum tempo achei-te louco, sádico e arrogante, que eras duas pessoas tão distintas, mas agora sei que a tua natureza, tão calma e permissiva, te impede de ser de outra forma.

ainda não

Surgiram os primeiros raios de sol e eu ainda nem tinha terminado a minha bebida, como se não lhe quisesse conhecer o fim. Deste-me a mão e apeteceu-me apanhar aquele paquete para o outro lado do mundo, onde fosse sempre dia e as nossas mãos fossem uma só. Com o rio reflectido no teu olhar, subi para um degrau e um beijo calou-me a vontade de te ter e agarrar. O sorriso iluminado pelo raiar do dia, os corpos a levitar e o meu desejo de ficar. O som dissipou-se entre a nossa respiração e o resto do mundo diluiu-se à nossa volta. De toda a gente que nos rodeava não me lembro de ninguém, apenas sombras silenciosas e deslocadas num universo só nosso. Não há nada mais íntimo e espontâneo do que o primeiro beijo. E eu desejei que os teus lábios fizessem sempre parte dos meus, que as tuas mãos fossem sempre cúmplices das minhas.

já faltou mais

No silêncio já pacificado do comboio, com o nosso sono cada vez mais intenso, comovi-me com a tua doçura, o teu cansaço, a tua entrega, a tua fragilidade, tu que lá fora, no mundo, me parecias tão forte, sério e  seguro. E quando o momento de cada dia se aproximava, sabia que nos íamos beijar durante toda a noite. Ansiosa, esquecia os dias de tristeza e de solidão, trocava-os todos por aqueles instantes únicos, eternos e irrepetíveis que marcavam cada reencontro. Desejei que voltasses a apertar-me os dedos como quem testa a força das minhas mãos, que me agarrasses nas ancas e rodopiasses o meu corpo, sem aviso e risco. Ou me passasses a mão pela cara e me chamasses pequenina, só mais uma vez. Não faço ideia do que sinto por ti, mas também não importa, porque, como para mim és duas pessoas e eu só gosto de uma, deixo a outra de lado e guardo-te numa caixa embrulhada em felicidade.

ou nunca mais

O melhor das coisas é não lhes conhecer o fim, por isso, vai. Vai para um lugar onde a eternidade não se saboreia em copos e gargalhadas e as respostas vêm todas em caixas pequeninas. Vai para esse mundo quase perfeito, como os teus braços eternos e o teu sorriso quase triste me embalaram nestes dias. Vai e guarda a felicidade numa caixa bem fechada, para ninguém saber, para ninguém tocar, para ninguém estragar.

La Bohemie.

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