Icarus, o voo dos Brass Wires Orchestra | Concerto no MusicBox Lisboa

Quanto mais alto se sobe maior é a queda, dizem. Entre mitos e lendas encontramos a história da humanidade – com as suas imperfeições, erros e certezas – aquilo que nos define como seres divinos e ao mesmo tempo tão frágeis e mortais. Na mitologia grega, o inventor Dédalo e o seu filho Ícaro procuravam a liberdade fora da prisão no labirinto de Creta, mas Ícaro voou demasiado alto, caiu e morreu. A premissa de Icarus, o novo disco dos Brass Wires Orchestra, baseia-se precisamente nesta crença, mas como a realidade supera sempre a ficção, o voo da banda portuguesa foi mais longe.

 

Na quinta-feira passada, 16 de novembro, o Musicbox Lisboa encheu para ver e ouvir ao vivo o tão aguardado sucessor de Cornerstone, o primeiro registo de originais dos Brass Wires Orchestra. Oito artistas em palco formam a orquestra. Dois trompetes, um baixo, um saxofone, um banjo, uma guitarra, teclas e bateria compõem as mais bonitas e distintas sonoridades. A forte ligação entre a boa disposição e a indulgente energia da banda portuguesa continua a ser uma das suas melhores características em palco. «Oxygen», «Coup de Pied» e «Trust» arrancaram sem interrupções o terceiro concerto do grupo nesta mítica sala de concertos. Cheia, sempre cheia. «Haunting» antecedeu o já conhecido e muito aplaudido single do álbum, «Youth», uma canção que aborda as novas tecnologias e uma certa prisão social e informativa em que vivemos. O primeiro registo de Icarus, que revela o quão se dedicaram para mudar a linguagem e a sonoridade do trabalho anterior, é uma forte crítica que nos faz pensar e questionar se não teremos todos um pouco de Ícaro em cada um de nós.

 

A meio do concerto percebemos que os Brass Wires Orchestra – apesar de sempre o terem assumido essas referências e terem vivido bem com isso – demarcam-se neste segundo projeto dos muitos rótulos e comparações a bandas como Beirut, Fleet Foxes e Mumford & Sons para construírem o seu caminho. Arriscaram, traçaram a sua rota e voaram bem alto, sem queimarem as asas no sol. O indie folk dá lugar ao indie rock, mas nota-se ainda um pouco de pop folk nos temas «Oxygen» e «Coup de Pied» que deram abertura ao concerto e seguem o mesmo alinhamento do disco. A festividade transforma-se em melancolia, mas sem nunca perder a alegria de os ouvir. Seguiu-se uma limpeza da alma com «Wash My Soul», tema do primeiro disco e partilhado em palco com a artista Ana Bacalhau, num misto de cumplicidade e partilha que emocionou quem testemunhou o momento.

E se falamos de emoções, o tema «The Proposal» foi uma maravilhosa homenagem a quem um dia teve o privilégio de amar e ser amado e não está cá para sentir o que nós sentimos. Miguel da Bernarda, dono de uma voz irreparável e autor de todas as composições de Icarus, fez questão de ler em palco, visivelmente emocionado, um texto duro e bonito que uma admiradora escreveu ao grupo. E se há quem, ao contrário de nós, não teve a oportunidade de estar ali, a banda fez questão de transmitir o concerto em direto na rede social Instagram, para que as palavras, o companheirismo e o amor tão predominantes nos Brass Wires Orchestra pudessem chegar a todo o mundo. Porque, apesar dos BWO tentarem em «Youth» alertar o público para a situação alarmante de desumanização em que se vive por causa da tecnologia e das redes sociais, são elas que igualmente nos une e nos torna tão mais próximos.

Depois de «Zephyr», «Icarus» foi a segunda surpresa da noite, tocada com NBC (New Black Color) a entrar discretamente em palco com versos soltos e rasgados, provando que o rap e o indie cabem no mesmo palco. As notas frescas e os sons elétricos que compõem esta orquestra tão diferente das restantes cruzam-se em perfeita harmonia com o violino e as tablas indianas, mostrando que os Brass Wires Orchestra são sérios e competentes e que, se o primeiro disco foi mais impulsivo e ingénuo, este é muito mais pensado e trabalhado. Já a chegar perto do fim desta maravilhosa atuação, «Whispers» puxou para «Tears Of Liberty», o single do primeiro álbum, que arranca num ritmo forte, acelerado, para se tornar mais sereno quando a voz nos confessa os trilhos desencontrados de amores e dar lugar ao último, poderoso e mais romântico tema do novo álbum, «Sitting in The Wrong Church».

Existe um ponto de equilíbrio no nosso processo de despertar que precisa de ser conquistado. Um ponto em que nos permitimos olhar e ver além da nossa própria experiência e existência, mas que amadurecemos essa visão através do trabalho para atingir novos caminhos. A experiência humana é repleta de cumes de inspiração e quedas dentro da dura realidade, formando assim uma mistura harmoniosa para içar voo em direção à grande liberdade interior, que nos traz infinitas possibilidades. O Ícaro da mitologia grega morreu, mas o Brass Wires Orchestra provaram-nos num concerto familiar e único que vale a pena voar até onde as nossas asas nos permitirem ir.

 

 

La Bohemie.

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