Júpiter: a última sinfonia de Mozart pela Orquestra Clássica do Sul.

O Terras Sem Sombra assume na sua 15ª. edição o estatuto de festival ibérico, e o primeiro encontro além fronteiras aconteceu na cidade de Valencia de Alcántara, na Extremadura. No passado dia 9 de março, a Orquestra Clássica do Sul e o maestro Rui Pinheiro levaram até à Iglesia de Nuestra Señora de Rocamador o concerto «Navegar es necesario: Charles Ives, Bruno Soeiro y W. A. Mozart».

Sob a direção do maestro Rui Pinheiro, a Orquestra Clássica do Sul apresentou, no passado dia 9 de março, um repertório musical focado em obras dos compositores Charles Ives, Bruno Soeiro e Wolfgang Amadeus Mozart.

Escrita em 1788, a última sinfonia de Mozart está carregada de palimpsestos e pura alegria. Jupiter é uma peça do pós-modernismo avant la lettre, e o tipo de trabalho que inclusive Beethoven, apesar de todo o seu iconoclasmo, dificilmente arriscou de igual forma nas suas sinfonias. Mesmo esta sinfonia em C maior está escrita nos limites mais distantes do possível para Mozart, numa esforçada tentativa de ver quantos contrastes expressivos e composicionais conseguiu encaixar numa única sinfonia. Mozart não tenta reconciliar esses opostos ou criar uma unidade maior, algo que gostaríamos de imaginar que o compositor fizesse, porque preferimos olhar para ele como um idealista romântico ao invés de um humanista do século XVIII. Pelo contrário, Mozart tenta alcançar uma complexidade de experiência emocional e uma riqueza de invenções bastante equilibrada de um penhasco musical coerente. Esta é uma sinfonia de extremos, algo simbolizado na justaposição do marcial e do plangente nas duas ideias que ouvimos nos primeiros quatro compassos da sinfonia.

A Sinfonia nº 41 foi a última sinfonia de Mozart e, porventura, a partitura mais monumental que escreveu para orquestra. O título por que é conhecida faz-lhe justiça – toma emprestado o nome do maior planeta do sistema solar, ou do Deus romano, pai de Vénus e de Minerva. Na Sinfonia de Júpiter, as complexidades contrapontísticas do final raramente foram expostas com tanta clareza ou alegria.

Composta por quatro movimentos, a peça começa com um tema alternadamente marcial e lírico. Em «Allegro Vivace», um segundo contraste utiliza uma escala cromática como característica central, seguido por um tema de fecho emprestado de uma ária de concerto escrita alguns meses antes. O segundo e terceiro temas líricos servem perfeitamente para equilibrar os floreios encontrados no tema de abertura. «Andante Cantabile» contem um dos temas mais longos que Mozart escreveu, com onze compassos. O amplo e imponente «Menuetto: Allegreto» que se segue poderia facilmente funcionar como uma dança real num salão imperial. E, por fim, «Molto Allegro» é o movimento de encerramento que se destaca como um dos mais interessantes movimentos sinfónicos escritos por qualquer compositor. Apesar de começar com um tema muito simples de quatro notas, prossegue com uma forma estrita de sonata, com tanto uso de imitação fogal, que muitos músicos alemães, do início do século XIX, se referiram a toda a obra como a “sinfonia com o final da fuga”.

Sinfonia Júpiter é uma obra imponente cujo título se ajusta a essa condição. Existem várias teorias sobre a origem deste nome, mas o certo é que se trata de uma obra cerimoniosa, de caráter majestoso, à qual assenta particularmente bem o nome de um Deus da mitologia romana frequentemente equiparado ao Zeus grego, o qual também já havia emprestado o nome a um planeta.

Fotos: Terras Sem Sombra 2019 / Herberto Smith

La Bohemie.

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