Número par.

Entrei mais ou menos a medo, sentei-me no sofá e esperaste que o tempo e a doçura me aproximassem de ti, mas fiquei sentada onde estava, e por uma vez na vida também fiquei à espera, que é uma coisa que aprendi a fazer nos últimos anos com grande perfeição e serenidade, e não me mexi no meu canto.

A princípio olhavas pouco para mim. Os teus olhos azuis perdiam-se nas cores e nos objectos, nas palavras e nos silêncios, falava muito de mim e tu pouco de ti, e como sempre nada de nós, daquilo que fomos, ou somos, ou afinal nunca fomos e eu comecei a ver-te de outra forma, como se não fosse eu a olhar para ti, mas um mundo inteiro de gente a observar-te, marcando mentalmente os teus traços e defeitos, catalogando-te sem o véu da paixão, reduzindo-te ao que afinal somos todos quando ninguém nos ama, homens e mulheres perdidos e imperfeitos à procura de uma luz qualquer, cansados e esquecidos de nós mesmos, apenas mais uma pessoa no mundo, a seguir um rumo que não sabe se é o certo, que não sabe se é o seu, mas que a faz avançar só para não ficar parada, porque parar é pensar e pensar é escolher e escolher é abdicar e tu nunca abdicaste de nada e por isso é que nunca quiseste ninguém na tua vida.

 

Não sei de que massa somos feitos, nós os humanos, que nos julgamos animais racionais e afinal andamos a vida inteira às turras com a vida. Eu à procura de uma pessoa a quem possa dar o meu amor e tu à procura de respostas para sobreviver melhor ao lixo do mundo. Eu a viajar para a alma dos outros através da minha solidão e tu a atravessar pessoas e rios para te sentires ainda mais só, sempre em guerra contigo mesmo e nunca em paz com o amor.

 

Há muitas formas de amar e de viver o amor, todos precisamos dele para não agonizar numa existência adiada e todos o vivemos de maneira diferente, mas enquanto te olhava e ouvia, perdida nas cores e nos objectos da sala e me enroscava ainda mais no sofá, percebi que fomos feitos de massas muito diferentes, e embora tão humanos quanto irracionais, afinal não procuramos as mesmas coisas. E foi então que percebi que deve ser isso o amor, querer o mesmo ao mesmo tempo, querer agora e depois, querer, se não para sempre, pelo menos durante muito tempo, querer estar, querer viver, querer construir alguma coisa a dois, esse número mágico que rege a humanidade, o céu e a terra, o ar e o fogo, a luz e a sombra, o voo e a queda, o bem e o mal, o tempo e o modo. Esse número par que eu tanto detesto mas desejo. O mundo sempre foi feito aos pares e se me ouvisses pensar, rias-te dos meus clichés, abanavas a cabeça num gesto de suave complacência e seguias em frente na viagem ao fim do teu próprio mundo, sem olhar para trás, como sempre fizeste com a tristeza e a vida. Mas sei, porque sinto o teu coração bater mais depressa enquanto ouves o que não te digo, que no fundo tens pena de não partilhar o sublime da vida, que é viver para amar, mesmo que o amor tarde ou nunca chegue, mesmo que alguém nos roube a alma para depois a devolver, cansada e esvaziada.

 

Não faz mal, acredita, dói só um bocadinho, mas depois limpa-se a memória e apaga-se a dor e como o mundo é regido pelo número mágico dos pares, um dia aparece outra vez o amor, nas mãos de quem o sabe dar e receber, nas mãos de quem também quer amar e viver.

 

 

La Bohemie.

One thought on “Número par.

  1. Não faz mal, acredita, dói só um bocadinho, mas depois limpa-se a memória e apaga-se a dor e como o mundo é regido pelo número mágico dos pares, um dia aparece outra vez o amor, nas mãos de quem o sabe dar e receber, nas mãos de quem também quer amar e viver.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *