O Bons Sons é uma aldeia, a Aldeia é um mundo.

Há qualquer coisa de indescritível no preciso momento em que se chega à aldeia de Cem Soldos. Um frenesim que se instala no estômago e nos deixa ansiosos. Uma magia que paira no ar e nos deixa nervosos. É ali, naquela aldeia, onde ao longo do ano pouco existe e durante quatro dias tudo acontece. Quanta felicidade cabe num homem só quando tantas almas fazem de uma Aldeia um lugar imenso?

 

Sempre imaginei Cem Soldos como uma aldeia onde os dias sucedem as noites e as noites sucedem os dias, naquela ciranda sem fim das mesmas coisas que se repetem, dos mesmos rostos que se cruzam, sem nunca surpreender ou espantar, das mesmas coisas que são ditas e repetidas, e que, por serem sempre as mesmas, não são mais ouvidas, e dos mesmos gestos, desembocando tudo naquela monotonia e no enfado de um mundo esgotado, onde a vida acontece pela inércia porque o seu gosto bom há muito se perdeu nos corpos cansados de viver… Até que algo estranho apareceu pela cabeça do Luís Ferreira, algo inusitado, diferente, não visto antes e que fez com que as pessoas que nunca paravam, por já haverem visto tudo o que há para ser visto, parassem e se juntassem naquele largo junto à igreja, olhando e perguntando umas às outras: “O que será?”. Até que algo estranho se ergueu pelas mãos de todos e hoje é visto como um dos festivais mais bonitos do país. O BONS SONS é uma verdadeira surpresa que une a beleza da paisagem natural de uma aldeia com a riqueza cultural de uma comunidade viva e jamais esquecida.

O Bons Sons é acordar com os toques do sino da igreja a ecoar nos céus lá longe e respirar o fresco de uma floresta húmida e radiante. O som dos fechos das tendas a abrir, uma atrás da outra, denuncia a alvorada de cada um, numa sinfonia quase orquestrada. Sem pressas, entre compassos de espera, vestimos uns calções e um fato de banho, calçamos uns chinelos e encontramo-nos todos na casa com piscina, que nos refresca o corpo nos dias quentes e a alma nas tardes amenas. O Bons Sons são os mergulhos desajeitados, os almoços apressados, e os banhos demorados; são as manhãs de verão a ouvir música e as tardes de primavera a tocar guitarra, são cada letra que compõem a inédita música «Cerejas do Fundão». O Bons Sons são as frases escritas e as palavras ditas, as coreografias ensaiadas, os risos constantes, as gargalhadas desmedidas e as conversas ponderadas. O Bons Sons é aquela ânsia de regressar com medo de não mais voltar, é percorrer todo aquele asfalto até à Aldeia com uma imensa vontade de lá chegar. Conversamos com cada uma das pessoas que se cruza no nosso caminho, sorrimos-lhes e anunciamos-lhes a nossa chegada. O Bons Sons é cada borrifadela de água que nos refresca a alma, é cada sorriso que procuramos num rosto que nos acalma. O Bons Sons é passear de copo ao pescoço e dançar com a caneca à cintura, visitar todas as tascas, percorrer todas as ruelas, descobrir todos os becos e perceber que, afinal, dentro daquela pequena aldeia cabe um mundo inteiro. O Bons Sons é a descoberta de recantos escondidos, é o reencontro com amigos e conhecidos, é conhecer os amigos dos amigos e os primos dos primos. Há crianças e adolescentes, adultos e idosos, porque ali, naquela pequena aldeia, somos um só, somos um todo. O Bons Sons é amor, é amizade, é calor humano e solidariedade. O Bons Sons é a troca de afetos e a partilha de sorrisos, são os brindes à vida e, no fim, é a vida que nos brinda. O Bons Sons são os caracóis e as moelas à tarde no Quintal do Largo e os ovos cozidos e a canja de galinha à noite na Adega de São Pedro. São os Jogos do Hélder no caminho, o jogo da corda na relva, o jogo do Benfica na SCOCS, o jogo das cadeiras do Duarte em qualquer lado. O Bons Sons é o concerto dos Meia Ginga numa Garagem lotada e os mini-concertos dos amigos numa Adega sempre com lugar para mais um. O Bons Sons é ficar sem voz por causa do pó do Palco Eira e ecoar em plenos pulmões o Hino do Intermarché. E só quem vai ao Bons Sons sabe o que é o Hino do Intermarché. O Bons Sons é ficar emocionada quando os Octa Push chamam a Dona Maria José ao palco e perceber que toda ela dança e encanta uma aldeia inteira. E só quem conhece o Bons Sons sabe quem é a Dona Maria José. O Bons Sons são tantos e tão bons concertos, tantos e tão maravilhosos artistas. O Bons Sons é o Senhor Machado que só volta em Setembro, o Bons Sons somos todos nós que não queremos esperar tanto para voltar.

O BONS SONS é uma experiência de vida e para a vida. A aldeia e o festival fundem-se num só corpo, numa só voz. Fazer parte deles é ser corpo, é ser alma. Aqui, nesta aldeia do interior, não são precisas mensagens a perguntar onde as pessoas estão, porque sabemos sempre onde as encontrar. É aqui, em Cem Soldos, que guardo a memória do mais bonito e surpreendente pôr-do-sol, daqueles que nos deixa deslumbrados, atónicos e boquiabertos, daqueles que jamais algum registo fotográfico fará jus à sua grandeza e beleza. Porque Cem Soldos é assim, deixa-nos sem palavras mesmo quando temos tanto para dizer. Esta aldeia que fica no coração do país, fica agora no coração de todos nós.

Chegámos de noite, cansados e com fome. Depois de uma viagem de quatro horas com muitas estórias e peripécias pelo caminho, somos recebidos por uma aldeia em pleno alvoroço. O sentimento é de nostalgia, algum alívio, e muita alegria. A estreia de alguns, mas uma nova experiência para todos. No largo de Cem Soldos o barulho de berbequins e marteladas em estacas de ferro anuncia os últimos retoques nos palcos, contentores e bancas de comida. Na Associação Cultural trocam-se bilhetes por pulseiras, confirmam-se horários, recebe-se informações, encontra-se colegas de trabalho, ultimam-se com rigor os mais ínfimos pormenores para os quatro dias de festival. Procuro um tasco, peço uma bebida e encontro um grupo de pessoas sentadas em bancos de madeira a petiscar caracóis. Amigos de amigos, que agora meus amigos são. Mal sabia eu que, depois de meia dúzia de cascas esvaziadas por um palito e um copo de vinho branco, iria para outro festival com essas mesmas pessoas, que agora são também as minhas pessoas. O espírito do Bons Sons é este mesmo, de camaradagem, sem estereótipos ou julgamentos. Somos uma comunidade e vivemos aqueles intensos quatro dias como só uma comunidade sabe viver, livre e tão cheia de tudo. Com vontade de querer ver tudo e viver tudo, sou convidada para um churrasco numa casa também com tudo: piscina, mesas de pingue-pongue e snooker, uma rede suspensa, consolas e televisão, muita música, muita bebida, e um enorme grupo de pessoas que me receberam de braços abertos, sorrisos na cara e encheram o coração. Pessoas que hoje são também as minhas pessoas. Nunca havia tido uma noite de recepção ao campista tão citadina, mas também nunca havia imaginado uma das melhores semanas da minha vida. Porque o Bons Sons é feito de surpresas, momentos inesperados, memórias inapagáveis. Por mais vezes que regressemos, é sempre diferente, é sempre bom, é sempre memorável. Obrigada Bons Sons. Obrigada pessoas. As minhas. Eu também só regresso em setembro.

La Bohemie.

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