O ciclo da lã – da ovelha para o tear.

A ovinicultura continua a assumir um papel importante na economia das zonas rurais de baixa densidade e a lã, que outrora foi um produto de elevada riqueza, hoje mal cobre os custos da tosquia. A ovelha é um elemento preponderante, e o seu pêlo um dos seus produtos mais nobre, contudo, as contingências da economia global em nada têm beneficiado o mercado nacional deste bem precioso. Integrando os passos do ciclo da lã, no passado domingo, dia 9, o festival Terras Sem Sombra acompanhou uma tosquia tradicional das ovelhas autóctones da região e proporcionou aos seus participantes uma visita ao recentemente inaugurado polo do Lombador do Museu da Ruralidade, dedicado à tecelagem.

 

Monte do Espanhol, onde resiste a tradição

As terras de Castro Verde presenteiam ao viajante um olhar esplendoroso pela planície imensa do sul do Alentejo. Um rendilhado de cores preenche o mais pequeno recanto nas paletas de primavera que brindam as gordas pastagens doutros tempos da transumância de gados. É aqui o coração do Campo Branco, onde a memória e a tradição oferecem uma especificidade sócio-cultural única, marcada por um diálogo fascinante entre a história e a natureza. No passado domingo visitámos o Monte Espanhol, onde pudemos assistir à maravilhosa arte de tosquiar ovelhas.

A lã é um recurso que tem registado, na última década, um ligeiro renascimento, com o investimento de algumas empresas na criação e renovação de unidades para a produção de fios nacionais. A indústria aposta também cada vez mais em linhas de produtos marcadamente ecológicos, com o intuito de responder a um consumidor mais informado e exigente. Com esta crescente preocupação ambiental, a utilização da lã representa uma fonte alternativa de grande potencial económico sobretudo para o interior do país.

A raça ovina Campaniça é, segundo quem sabe, uma raça detentora de elevada rusticidade e longevidade, oriunda da Península Ibérica, sendo tradicionalmente explorada em sistema extensivo nas zonas mais marginais do Alentejo interior. Uma realidade ecológica, como resultado de uma selecção quase natural ao longo dos tempos. Os ovinos de raça Campaniça tiveram no passado alguma importância económica para a agricultura Alentejana.

 

Memórias da Ruralidade de um Campo Branco desaparecido

O antigo edifício da Escola Primária do Lombador acolhe, desde dezembro passado, o polo da Tecelagem do Museu da Ruralidade. Um projecto que pretende dignificar a memória de uma actividade essencialmente feminina e praticamente desaparecida – o fabrico de mantas de forma artesanal -, e que teve na freguesia de Santa Bárbara dos Padrões um dos seus mais importantes centros de produção de mantas na região do Campo Branco. Naquele que era um espaço abandonado, em degradação, inaugurado em 1966, instalou-se o quarto polo do Museu da Ruralidade, através de uma parceria informal estabelecida entre a Junta de Freguesia de Santa Bárbara de Padrões, a Câmara Municipal de Castro Verde e o Museu da Ruralidade.

Foto: Alfredo Rocha

As mantas do Lombador e os Cardadores da Sete são referências que ainda hoje são familiares aos habitantes da região, assim como está muito viva na sua recente memória ir à Feira de Castro Verde e ver à venda as mantas do Lombador. Esta realidade completamente extinta exigia a criação de um espaço museográfico desta natureza, evitando-se o esquecimento de uma arte importantíssima, do ponto de vista socioeconómico, para toda a comunidade do Campo Branco, e uma especificidade cultural identitária de raízes com mais de cinco mil anos.

A tecelagem faz parte da história destas terras de transumâncias de gados, sobretudo ovinos, que assistiam e assistem, anualmente, às tosquias entre os meses de março e maio, às vezes entrando junho dentro. E numa terra de tosquias, a maioria das casas tinha o seu tear, as mulheres desde cedo aprendiam a tecer, e cujo saber fazer se passava de geração em geração, repetindo os mesmos gestos e os mesmos padrões. Tecia-se para fazer o enxoval para os filhos, para fazer uma manta para o homem levar para o trabalho no seu dia-a-dia de ganhão ou para acompanhar os gados no pastoreio. Mas tecia-se, também, para responder aos imprevistos de uma doença.

O Museu da Ruralidade acolhe uma colecção de equipamentos, máquinas e objectos ligados à actividade agrícola e ao mundo rural da região de Castro Verde e, ao mesmo tempo, procura mostrar alguns aspectos da oralidade e do património imaterial das terras do Campo Branco. Aqui podemos encontrar uma debulhadora fixa e um arado lado a lado com um seleccionador de sementes ou uma enfardadeira manual. Conhecer os objectos da oficina do último abegão de Castro Verde ou ver a forja do ferreiro Matos de Entradas.

O Polo do Lombador do Museu da Ruralidade é um projecto museugráfico que se desenvolve não apenas no interior do edifício da Escola Primária, como também no seu pátio. Neste Museu, o visitante pode conhecer a diversidade de raças autóctones de ovinos do nosso país – são cerca de 15 raças diferentes – distribuídas por todo o território nacional. Fotografias, gráficos e textos contribuem para uma primeira abordagem ao tema da tecelagem. Já no interior, a exposição fala do processo histórico das transumâncias de gado, tão importante para a região, sobretudo nos séculos XVI e XVIII, e mostra-nos todos os passos de fabrico de uma manta, desde a tosquia à fase final de tecer.

 

Museu, um lugar de estórias e saberes

Museu é uma palavra tão curta mas que veicula tantos significados. Um Museu é o lugar de todos e para todos. Lia Ferreira diz que um Museu carrega memórias de outros para actuais e futuros visitantes, reúne estórias e muitas histórias. Um lugar onde se privilegia o conhecimento e a memória. Um lugar mágico que nos transporta para épocas remotas ou futuristas e nos conduz por diferentes pensamentos e modos de vida. Nesse lugar que é de todos e pertença de ninguém, não esperamos encontrar um depósito de artefactos e informações empilhadas, categorizadas amorficamente. Esperamos sim, descobrir elementos e espaços de diálogo imaterial entre formas de construir, pensar e viver.

Foto: Alfredo Rocha

Uma ida ao Museu é um programa que fazemos mais por prazer do que por necessidade. Marca-nos, enriquece-nos culturalmente e apresenta-nos diferentes perspectivas sobre o mundo. Um Museu, um verdadeiro Museu tem um valor inestimável, mesmo que não dispondo de artigos e instalações luxuosas. Os pedaços de história que salvaguarda têm valor superior ao do dinheiro corrente. O que guardam e expõem são parte da nossa identidade. Este potencial dos museus pode e muitas vezes é comprometido por uma gestão de conteúdos incapaz de comunicar assertivamente com os seus visitantes. Do mais douto intelectual ao menos sábio e inexperiente, abrangendo o mais distraído, não esquecendo formas de alcançar o diminuído intelectual, todos devem ser respeitados, porque materializam o visitante.

A longevidade saudável de um museu depende dessa capacidade de aproximação através da comunicação e oferta de experiências participativas. Certamente será desnecessário explicar a importância dos Museus. No entanto, é pertinente incitar a reflexão sobre o interesse em tornar uma visita a um Museu uma experiência imersiva para todos, sem excepção. Nesse sentido, somos forçosamente impelidos a reequacionar a forma como interpretamos os museus e respectivos legados material e imaterial. O Museu tem sido entendido como peça patrimonial e por isso intocável. Pedra e obras são consideradas valor supra e isso tem agravado a dificuldade em romper conceitos e preconceitos cultivados e enraizados, por esse princípio. A ideia de que o Museu é um fragmento cristalizado pelo tempo e história é um cliché que urge em dar lugar a uma visão mais alargada sobre a própria razão de existir destes equipamentos.

 

Fotos: Carlos Valadas | Mafalda Saraiva | Alfredo Rocha

 

La Bohemie.

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