O duende dos versos de José Saramago e da voz de Esperanza Fernández | Terras Sem Sombra

Há muito que se esperava pelo quinto concerto da 13ª edição do festival Terras Sem Sombra. No passado dia 6 de maio, Serpa foi palco de um maravilhoso concerto onde se fundiu o Flamenco de Andaluzia e o Cante Alentejano. Esperanza Fernández é a cantaora de flamenco dos poetas, os de hoje e os de sempre, é a voz cigana do hino andaluz, a guardiã dos cantos de Triana. Da devoção popular à poesia de José Saramago, a Praça da República encheu-se de alegrías, mariana e tanguillos, soleares, malagueñas e bulerías.
«Este mundo não presta, venha outro. / Já por tempo de mais aqui andamos / A fingir de razões suficientes. / Sejamos cães do cão: sabemos tudo / De morder os mais fracos se mandamos, / E de lamber as mãos, se dependentes.» O poema «Demissão» é de José Saramago, mas foi Esperanza Fernández que o proclamou em pé no início do seu concerto, deixando centenas de pessoas arrepiadas e, por certo, abismadas. Pilar Del Río diz que a poesia nasce em silêncio, talvez com pausas não marcadas no poema, mas exigidas pela sensibilidade do leitor, impelido a fechar os olhos ou a olhar para o infinito de uma parede ou a paisagem que se abre sob as pinceladas de um quadro. Diz também que a poesia é caprichosa, umas vezes fortalece a alma, outras esforça-se por medir a dimensão humana ou a consistência dos sonhos. Quando decidiu criar o álbum  A Minha Voz Na Tua Palavra, a cantaora Esperanza Fernández descobriu na primeira obra poética de José Saramago uma poesia de liberdade, de fraternidade e de luta. Uma luta disfarçada, por dentro das palavras, pelo interior labiríntico de respiração que habitam todos estes poemas, publicados pela primeira vez em 1966. Digamos que eram os «poemas possíveis» da altura, quando a censura espiava a alma dos escritores. A escrita de Saramago é de uma enorme sensibilidade, e a voz de Fernández transmite-a com serenidade e equilíbrio a cada palavra, suavidade e elegância a cada verso, sendo capaz de descrever o mundo de uma forma tão dura quanto bonita. A obra de Saramago é um símbolo de manifestação socio-cultural de um povo e há muito que ultrapassou fronteiras portuguesas convertendo-se num veículo expressivo das inquietudes e esperanças de uma grande parte da humanidade.
Foto: João de Sousa
Esperanza Fernández faz das raízes da sua música a música da sua gente, a música flamenca. Cada tema, popular e poético, é um avanço nessa pretensão louca que têm os artistas de chegar ao coração dos outros, o seu canto corta-nos a respiração, não deixa alguém indiferente porque o seu espectáculo é um discurso contra a mediocridade e contra a violência. Este concerto, que pela primeira vez se realizou ao ar livre numa praça, há muito que era esperado e a artista espanhola superou todas as expectativas, cantou com o seu coração e tocou na nossa alma. De longos cabelos louros, um vestido azul esvoaçante, o sorriso branco a contrastar com a pele escura e de leque a dançar de mão em mão, Esperanza entoa «A ti regresso mar, ao gosto forte / Do sal que o vento traz à minha boca, / À tua claridade, a esta sorte / Que me foi dada de esquecer a morte / Sabendo embora como a vida é pouca». Ouvir Esperanza a cantar estes versos é de uma tremenda homenagem à vida, à arte e, sobretudo, ao poeta humilde, humano, com valores morais que fizeram dele um homem justo e um mestre da existência. A voz da cantaora espanhola nos poemas do escritor português é um apelo ao amor humano e um grito desesperado porque até o mar, sendo imenso, tem limites e não pode ir mais longe, que é o que anseiam os amantes e os criadores. Ainda assim, Esperanza Fernández e José Saramago conseguem-no. E vão, acompanhados pela guitarra do extraordinário Miguel Ángel Cortés, as palmas e percussão do trio Jorge Pérez “El Cubano”, Dani Bonilla e Miguel Junior, com a música bem delineada, com o compasso claro e definido, até onde antes ninguém se atreveu a navegar, seja mar, seja corpo, seja alma. Ao longo do concerto seguiram-se trocas de vestidos, guitarradas e batuques, muito cante jondo e dança, palmas e assobios, cantos de compasso livre, uma adaptação de tanguillo, soleá, malagueñasabandolaos e bulerías em tempos diferentes. Na sua actuação não faltaram os característicos temas sacro que caracterizam o festival, como «Agnus Dei» e «Cordero de Dios», mas termina à capella com o canto à intimidade, sentimentos da artista convertidos em pura arte.
Foto: João de Sousa

 

Esperanza tem um dom, uma essência pura que brota da sua alma, é uma artista irrequieta que procura e aborda projectos que transcendem o seu legado – não fosse o disco Mi Voz En Tu Palavra um trabalho arriscado sobre a poesia de um Nobel. Desde a sua época que mergulha no passado recente do Flamenco e, sendo-lhe fiel, debate-se com ele para fazer sobressair a sua personalidade que, ao mesmo tempo, é a única forma de manter o tradicional vivo e actual e fazer do moderno tradicional. A chegar ao fim do espectáculo, de olhar triste e vazio a contrastar com a pele radiante e morena, de vestido preto como quem está de luto, Esperanza Fernández cantou o hino dos ciganos, Gelem Gelem, uma história que vem do tempo do Holocausto onde não só morreram milhões de judeus como muitos da sua etnia. O público, que até então susteve a respiração num entorpecido silêncio, aplaudiu orgulhosa e incessantemente a artista de pé, reconhecendo o seu talento, perfeito, mágico e autêntico.

Foto: João de Sousa

Mas se o espectáculo já havia sido de cortar a respiração e rasgar o coração, Esperanza Fernández deixou a mais surpreendente surpresa para o fim. Num compasso acertado e organizado, sobe ao palco o Rancho de Cantadores da Aldeia Nova, no qual se funde como por magia o Flamenco da Andaluzia com o Cante Alentejano, numa harmonia inesperada mas perfeita. No palco cantaram-se algumas modas, em conjunto e a solo, como a «Limoeiro», «O Meu Chapéu» e «Pomba Branca», deixando o público extasiado, eufórico, mas acima de tudo grato. ¡Foi sem dúvida um concerto com muito salero e duende!

Foto: João de Sousa

Fotos: João de Sousa

La Bohemie.

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