O novo “rock” do Super Bock, o hip hop

Ainda o 2.º dia da 23.ª edição do Super Bock não tinha começado e já se faziam comparações com o último dia da edição anterior. Começa a ser hábito, no festival que se realiza há três anos no Parque, haver um dia para o novo “rock” do Super Bock, o hip hop.

A partir das 17 horas iniciou-se mais um sunset no Moche Room a cargo da equipa do Swag On, a mesma equipa que realiza uma vez por semana as já bem conhecidas festas de hip hop. Num lounge bem arranjado com visto para o rio e com o teleférico a passar bem perto de nós, é possível desfrutar do melhor hip hop e do melhor ambiente que o Super Bock Super Rock já viu naquele cantinho exterior da MEO Arena. Falámos com Van Breda, também ele DJ, e responsável por este projeto que nos refere ser “o espaço para a malta beber um copo e aproveitar o final de tarde. Este era um espaço que já existia mas ninguém utilizava no festival. Nós estamos aqui para aproveitá-lo da melhor maneira, recebendo também os nossos clientes. Hoje então que é o dia do hip hop“. A par disso, em cada dia é colocada uma tela onde um graffiter convidado pinta a sua obra. Ontem foi a vez de Catarina a expor a sua arte, contando também com a ajuda de Van Breda neste trabalho. Das 17 horas até às 21 horas é possível usufruir deste magnífico sunset no Moche Room que conta, claro, com muitos passatempos do Moche.

À mesma hora, começavam a surgir as primeiros sonoridades de hip hop no Parque. O DJ de Pusha T ao som das canções mais conhecidas da atualidade – “Humble” de Kendrick Lamar ou “Panda” de Desiigner são alguns exemplos. Após a plateia aquecida pelo sol de fim de tarde e ao som do seu DJ, Pusha T sobe ao Palco EDP. A multidão começou a aproximar-se, ignorando o sol que lhes enfrentava a vista. Os amantes de hip hop são assim, pouco importa. “Com este sol e a transpirar assim vou ficar mais magro” ouvia-se um festivaleiro a comentar. Feliz pela multidão que tinha à sua frente, conta até três e pedi ao público para gritar “good music”. Como se estivesse a abrir uma porta, um início de boa música neste segundo dia no Parque. Contudo, era apenas uma alusão à sua editora, criada por Kanye West, G.O.O.D Music. O seu espetáculo baseou-se nos temas do seu último álbum, King Push – Darkest Before Dawn: The Prelude.

Arrisco-me a dizer que o Palco EDP nunca esteve tão bem composto nesta 23.ª edição como à hora de Slow J. Não tinha pisado o palco nem há 5 minutos e Slow J atira “vocês são muitos. Muito obrigado Super Bock, tenho uma vista atrás de vocês que nem sabem”, ri-se, meio tímido. Os festivaleiros foram recebidos com uma versão de “Não me mintas” de Rui Veloso, seguindo-se “Arte”. “Para quem ainda não viu nenhum concerto nosso, quando nós estamos em casa toda a gente é família, é ou não é Super Bock?”, lançando a deixa para a canção seguinte “Casa”. Num palco maior – na edição anterior Slow J atuou no Palco Antena 3 (agora Palco LG by SBSR.FM)) – trouxe consigo convidados como Nerve para “Às Vezes” e GSon de Wet Bed Gang e Papillon de GROGnation para o já clássico “Pagar as Contas”. Os dois continuaram junto de Slow J para “Vida Boa”. E que bom concerto. Considerado um dos melhores deste 2.º dia.

Tronco nu. Asas de anjo. Foi desta forma que NBC se apresentou no Palco LG by SBSR.FM. Em 2016 o rapper lançou o seu mais recente disco “Toda a gente pode ser tudo”. Deste álbum fazem parte os temas “Pulmão” ou “Acorda” e o seu hit “Dois”. Para esta última canção, NBC contou com a presença em palco do seu filho, que o ajudou a cantar grande parte da letra. “O hip hop não é música de guetto. Nós trabalhámos para isto! Em 2017 estamos aqui. Hip hop tuga!”, refere o rapper, agradecendo a oportunidade de poder estar a atuar no Super Bock Super Rock, num dia recheado de artistas de hip hop. Aproveitando o nome do seu mais recente disco, o cantor não deixou de referir que “eu sou a representação daquilo que eu quiser ser. Todos morremos sozinhos, somos o que nós quisermos!”, levando o público do Palco LG by SBSR.FM a aplaudir NBC pelas palavras. Ainda houve tempo para Virgul acompanhar o rapper no refrão da música “Nu”.

Língua Franca é o quarteto que junta Valete, Capicua, Rael e Emicida. O concerto juntou temas do primeiro álbum do grupo, tais como “Génios Invisíveis” e “Ela”, e clássicos a solo de cada um. Valete entra no Palco EDP sozinho e o público festivaleiro entra em euforia. Desde o “Fim da Ditadura” até ao mais recente sucesso “Rap Consciente”, o rapper colocou as cartas todas em cima da mesa. Pede auxilio para “se é para morrer, morremos de pé”, avisando o público “não me deixem ficar mal”. Mas nem foi preciso. Os festivaleiros sabiam a letra na ponta da língua. De seguida Capicua canta “Medusa”. Sem esquecer também “Maria Capaz” e “Vayorken”. Apesar de Rael e Emicida terem boa presença em palco e domínio da música, Valete e Capicua foram os mais fortes, uma vez que jogaram em casa.

Future era a grande promessa da noite. Ao longo do dia ouvi ser comparado com Kendrick Lamar, onde não tem qualquer comparação. O rapper de Atlanta – sim, de Atlanta – entra no Palco Super Bock sozinho. Não tem DJ. Não tem banda. Estava apenas ele em palco e alguns momentos acompanhado por três dançarinos. Para muitos foi uma surpresa. Até disseram que pode ser o futuro das atuações ao vivo. Contudo, um artista não pode ter o seu registo? Fugir do “normal”? Future teve uma boa presença em palco e soube preenchê-lo, sozinho. Puxou pelo público, cumprimentou-o, dançou para ele e não se deixou intimidar. Os momentos mais altos da noite foi quando o rapper pediu ao público que fizesse um “L” com as mãos, introduzindo “Low Life”, um dos seus maiores sucessos com participação de The Weeknd. Agradece posteriormente ao público por estarem com ele, arranca para “Mask Off”, o hit do novo álbum. Termina com uma chuva de confetis. Sim, um rapper com chuva de confetis. Future é isto. O futuro também? Não sabemos. Só é pena o sistema de som e a acústica da MEO Arena não estarem devidamente preparadas. Se não tivesse falhado, Future teria sido a estrela da noite.

Não era o dia de London Grammar mas não podemos de deixar de falar no trio britânico. Ainda que fora de contexto, a sua estreia em Portugal não podia ter sido mais bonita. A receção a London Grammar foi calorosa, mas longe de encher a MEO Arena. Só a voz de Hannah Reid é que teve capacidade de encher a maior sala de espetáculos do país. A vocalista mostrou que mesmo ao vivo não falha nos tons mais graves e mais agudos, mostrando-se sempre muito afinada. Os temas mais bem-sucedidos não foram esquecidos, desde “Hey Now”, “Help Me Lose My Mind” (gravado com Disclosure) com uma mistura de “Flickers” e “Rooting for You” a capella. “Truth Is a Beautiful Thing” e “NightCall”, altura em que Hannah Reid silenciou o MEO Arena, também não ficaram de fora do alinhamento. De calças de ganga e casaco da Nike, Hannah mostrou-se muito descontraída, confessando que tiveram um ótimo dia em Lisboa. “Obrigado, vocês foram fantásticos”, terminam.

Lê também a reportagem do segundo dia, aqui. Se ainda não leste as reportagens do primeiro dia da 23.ª edição do Super Bock Super Rock ainda vais a tempo aqui e aqui.

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