O sopro da alma dentro de um piano.

O sétimo concerto do festival Terras Sem Sombra esteve a cargo do Ensemble ]W[, o prestigiado grupo de solistas da Orquestra do Festival de Lucerna, na Suíça. Higinio Arrué, José Vicente Castelló, Lucas Macías, Vicent Alberola e Nicholas Rimmer deslumbraram na Igreja Matriz de São Salvador, em Sines, com o programa intitulado As Afinidades Electivas: Mozart & Beethoven, dedicado a duas famosas obras para sopros – oboé, clarinete, trompa, fagote – e piano, uma verdadeira raridade na história da música: um quinteto de Wolfgang Amadeus Mozart (Quinteto em Mi bemol maior, Op. 16) e outro de Ludwig van Beethoven (Quinteto em Mi bemol maior, KV. 452).

 

Um dom, dois génios

Nikolaus Harnoncourt dizia que W. A. Mozart não foi um pioneiro da sua arte, na medida em que não introduziu técnicas inovadoras ou impulsionou reformas. Segundo o maestro alemão, a sua singularidade deveu-se ao domínio exímio dos recursos que tinha ao dispor, e à depuração dos mesmos na obtenção de uma expressividade profunda. Há, porém, que ressalvar pelo menos uma excepção. Quando, em 1784, juntou um piano, um oboé, um clarinete, uma trompa e um fagote numa peça de câmara – o Quinteto KV. 452 – foi o primeiro a fazê-lo. Já Lugwing van Beethoven foi um dos poucos artistas a conseguir revolucionar um género artístico de forma tão ampla e profunda. As suas inovações, tanto na forma de compor quanto na de ouvir música, tornaram-no um ponto de referência e o símbolo do que há de mais sublime e sofisticado na chamada rainha das artes, a própria música.

Génio. A palavra seduz, mas saberemos realmente o que significa? A actual definição encontrada em dicionários – «extraordinária capacidade intelectual que se manifesta em actividades criativas» – é um produto dos românticos do século XVIII, esses poetas inquietantes que sofriam, sofriam pela sua arte e, podemos agora dizer, pela sua criatividade, uma palavra ainda mais recente: surgiu apenas em 1870 e só atingiu um uso generalizado nos anos 50 do século XX. Mozart e Beethoven foram dois génios e partilharam o mesmo dom, mas muito os separou. Quinze anos, centenas de quilómetros, estilos musicais, o temperamento, o tipo de corpo, sentido de humor, sensibilidade à moda, o cabelo. Apenas em 1787 o caminho destes dois génios se cruzou. Mas por mais que queiramos pensar em Mozart e Beethoven como dois génios que transcenderam o tempo e o espaço, não é esse o caso. Foram em muitos aspectos homens do seu tempo. De certa forma, foram mais do seu tempo do que outros, e foi precisamente isso que os tornou tão brilhantes. Mozart morreu antes de Beethoven se tornar um génio. Porém, o fantasma de Mozart assombrou Beethoven ao longo de toda a sua vida e evitava rigorosamente qualquer laivo de imitação, consciente ou não. Locais cheios de genialidade são contraditórios. Embora a inspiração esteja onde quer que se procure, há sempre o perigo da imitação, mesmo que não intencional. Esse receio assombrou Beethoven durante toda a sua carreira, mas também o impulsionou por novos caminhos, mais invulgares. Mozart reagiu a Haydn, Beethoven reagiu a Mozart. Haydn inspirou Mozart e Mozart inspirou Beethoven.

No passado dia 3 de junho não assistimos a um concerto de música clássica – se usarmos o adjectivo clássica para descrever uma obra sugamos-lhe a vida, matamo-la. Nem Mozart nem Beethoven escreveram uma única nota de música clássica. Escreveram música contemporânea que nós agora classificamos como clássica. Há uma grande diferença. O concerto do quinteto de referência Ensemble ]W[ pareceu uma caixa dentro de uma caixa, dentro de uma caixa. Há sempre outra caixa por descobrir. É um tipo de felicidade nunca preenchida. Um coração em sofrimento. A música, a boa música, é sobre exportar tristeza. Os artistas fazem parte do negócio de importação e exportação. São mais sensíveis do que os restantes de nós, importam o sofrimento de um mundo imperfeito. Depois processam esse sofrimento, reformulam-no em arte e exportam-no, conseguindo dessa forma reduzir a tristeza deles e aumentar o nosso prazer. É maravilhoso quando uma obra musical concilia a perfeição técnica com a necessidade expressiva. Este agrupamento, que teve origem na Orquestra do Festival de Lucerna, conseguiu vangloriar duas obras à primeira vista aparentadas, mas, a uma escuta atenta, suficientemente distintas para contemplarmos – por ser rica e abrangente – uma experiência mais ampla das possibilidades oferecidas pela rara combinação de piano com o quarteto de oboé, clarinete, trompa e fagote. Os pulmões do quarteto de sopro encheram-se de ar e soaram numa perfeita harmonia, enquanto as mãos do pianista Nicholas Rimmer dançavam por cada tecla, como um sopro da alma dentro de um piano. A música não precisa de ser entendida, desde que seja sentida e, nesse sentido, assistimos a um espectáculo de magia de sete génios com um único dom – o da música.

 

Fotos: João de Sousa

La Bohemie.

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