O Super Bock Super Rock deixou a sua casa na cidade e veio passar o fim de semana ao campo.

Depois de quatro anos no Parque das Nações, o Super Bock Super Rock regressou ao cenário idílico do Meco para comemorar a sua 25.ª edição. Do poder de Cat Power à energia dos Metronomy, do pop rock dos The 1975 ao soul e funk dos Jungle, terminando na magia e melancolia de Lana Del Rey, os 25 anos do festival são celebrados, durante três dias, com concertos que marcaram a história do panorama musical, num lugar onde se realizaram algumas das edições mais memoráveis da sua história. Ao todo, esperam-se cerca de 90.000 pessoas.

Primeiro Dia SBSR – World Academy

Há poucas vozes mais profundamente enraizadas na iconografia e na mitologia do rock independente americano do que a de Chan Marshall. Sob o nome musical de Cat Power, Marshall embala-nos com as suas músicas há quase 25 anos e a sua habilidade como compositora, produtora e vocalista só se tornou ainda mais influente com o tempo. Depois de ter atuado no festival há cinco anos, a primeira artista a subir ao Palco Super Bock  contempla-nos, ora com temas do seu décimo álbum – como o comovente «Me Voy» –, ora com clássicos como «Metal Heart», de 1998. No mais recente disco, Cat Power restaura as suas coordenadas e oferece uma coleção de músicas que funcionam como exemplos perfeitos da sua prática criativa em constante evolução. Acompanhada por um trio, uma guitarra e piano, Wanderer é uma coletânea de narrativas imbuídas no tipo de saudade calorosa que fez dela uma das artistas mais queridas e singulares da sua geração.  Wanderer é uma proposta bastante diferente do LP anterior de Marshall, Sun, um dos dez melhores álbuns dos EUA em que o calor, a eletrónica e os beats pareciam traçar uma linha sob a antiga e estranha Cat Power que brilhou tão alto quanto o sol, num fim de tarde quente de verão.

Jungle – Super Bock Super Rock

O sol pôs-se e as cores quentes, num harmonioso degradê, tomaram conta do palco principal. É assim o cenário dos britânicos Jungle. A sua música é uma bricolagem de género, recusando-se a sentar-se ordenadamente num lugar entre soul, synth-pop, eletrónica e funk. No entanto, há uma identidade coerente na sua paisagem sonora que tem fortes associações com a felicidade do verão, prontamente exemplificada pela deliciosa abertura de «Smile» e«Heavy, California», do segundo álbum For Ever. A energia otimista da banda inglesa contribui para esta afiliação sazonal, e as vibrações ensolaradas do primeiro dia do Super Bock Super Rock proliferam a noite com um esquema de iluminação brilhante e contagiante no espectro vermelho e amarelo. A dupla Tom McFarland e Josh-Lloyd faz-se acompanhar ao vivo por mais cinco elementos e dança num alinhamento com músicas de ambos os álbuns, criando uma mistura eclética de sons sedosos e cheios de soul, novos e antigos.

The 1975 – Super Bock Super Rock

Já se sabe que os ingleses são de confiança quando o assunto é entregar pop/rock feito com bom gosto, e Manchester é uma cidade que já traz consigo um selo de qualidade a esse nível. Pelo palco principal passou também o quarteto de pop alternativo The 1975.  Pela terceira vez em Portugal, a banda – composta por Matty Heraly, George Daniel, Ross Mac Donald e Adam Hann –, trouxe consigo o terceiro álbum A Brief Inquiry into Online Relationships. É um disco semelhante ao seu antecessor no sentido ilimitado de estilo, mas o sentido crítico está lá, cada vez mais afiado, e o ecletismo musical também, cada vez mais integrado na própria cosmovisão destes ingleses. No palco, há duas bailarinas que acompanham os ritmos de eletrónica e synth pop, rock e R&B, mas também há luzes néon e uma estrutura retangular luminosa que representa um telemóvel. Pois é de relações, cada vez mais virtuais, que a banda aborda. Um retrato bombástico e imaculadamente construído da vida moderna, no qual temas como «Love It If We Made It» ou «Sincerity Is Scary» atingem um ápice assustador.

Metronomy – Super Bock Super Rock

A fechar o Palco EDP, na primeira noite do festival, estava o tão aguardado regresso dos Metronomy. Com um olho posto no pop eletrónico e outro na música dos anos 70 e 80, Joseph Mount inspirou-se na sua infância no sul de Inglaterra para criar um disco ensolarado, quente, e repleto de hits como «The Bay», «The Look» e «Everything Goes My Way». The English Riviera (2011) foi o álbum com o qual a banda se tornou um epicentro de um terramoto que abanou os alicerces da pop britânica. Depois de Love Letters (2014), seguiu-se Summer 08, onde a fórmula se mantém: pop a rasgar o funk dos anos 70, langor e sensualidade sem nunca deixar a pista de dança. O desempenho da Metronomy é nostálgico, polido e profissional – a marca de uma banda que agora são um nome bem estabelecido na dance music. Além de novos temas ainda pouco conhecidos pelo público – os festivais nunca são um bom lugar para dar a conhecer novos álbuns – o grupo trouxe um espetáculo repleto de encantadoras e conhecidas coreografias com jogos de luz branca ofuscante, muito ao estilo made in England.

Lana Del Rey – Super Bock Super Rock

Atuou no Meco precisamente há sete anos. Agora regressou com aquele que a viu nascer: Born To Die. A cantora de «Video Games» subiu ao palco Super Bock perante os milhares de fãs que esgotaram o primeiro dia do festival só para a ver. Falamos, pois, de Lana Del Rey, que atuou num cenário repleto de enormes palmeiras e imagens de praias paradisíacas. O público sabia para o que ia: «Born To Die», «Cherry» e «White Mustang» foram o arranque daquele que se tornou o concerto mais bonito e emocionante da noite.
Depois de se bombalear no chão ao som de «Pretty When You Cry», Lana Del Rey pergunta ao público se canta com ela «Blue Jeans», mas o público canta muito mais. «National Anthem», «Summertime Sadness» e «Off To The Races» levam-nos ao tempo da sua reivindicação à fama. Born To Die é cheio de alma, com elementos de pop, hip-hop e jazz. Os vocais da menina com cara de boneca que é já uma mulher complementam o som sombrio e as histórias do álbum. Às vezes um cabaré ou um drama contundente, e até mesmo uma festa no jardim da madrugada com um cocktail de bebida e algumas drogas compõem este fabuloso álbum de vulnerabilidade, tristeza e esperança. «Video Games» é cantada a plenos pulmões, enquanto o público chora, abraça-se, dança. Lana Del Rey é aquele tipo amor que se entranha na nossa pele e embala-nos enquanto nos estrangula. É um amor que nos magoa para depois nos fazer sorrir. É um amor melancólico, sofrido, apaixonado. As temperaturas caíram enquanto o sol dormia, criando uma atmosfera quase agridoce de fim de verão, que se encaixava perfeitamente nas suas letras de verões quentes e longos, mágoa e amor. Como se tudo isto não bastasse, La Del Rey elogia Lisboa, agradece aos fãs, desce ao público, tira selfies, dá autógrafos e beijinhos, recebe presentes, e termina o concerto com a versão completa de «Venice Bitch». Nove minutos de um adeus que vai deixar saudades.  

Pela Herdade do Cabeço da Flauta também passaram outros artistas como Sallim, Grandfather´s House e Madrepaz, que aturam no Palco LG by Rádio SBSR; Glockenwise, Marlom Williams, Dino S’Antiago e Branko no Palco EDP; Conan Osiris, Roosevelt e Sebastian no Palco Somersby.

La Bohemie.

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