Os Jungle são uma viagem introspetiva, longe do conforto dos nossos sofás | Super Bock em Stock

Para terminar a última noite do Super Bock em Stock, dançámos no Coliseu dos Recreios ao som dos Jungle. Dentro de uma ideia de neo-soul com pitadas de psicadelismo, a banda tem um novo disco e não nega as influências do melhor funk da década de 70. Depois de ter marcado presença em Portugal no verão passado, o grupo britânico passou agora por Lisboa para encerrar o Festival, e provar-nos que o corpo humano foi feito para dançar e pouco mais.

 

 

«O concerto dos Jungle foi tão bom que conseguiram rebentar com o sistema de som» – brinquei eu quando surgiram problemas técnicos a meio da atuação, no Coliseu dos Recreios. Mas já lá iremos: sejam bem-vindos à Califórnia, onde passamos do sonho solarengo para a realidade, difícil e decepcionante. Sim, porque os Jungle sempre se pareceram mais com uma banda de Los Angeles. Quando editaram o primeiro disco homónimo, em 2014, criaram desde logo uma marca inebriante de reminiscência de pop funk mais adequada à Califórnia do que às ruas de Londres. Depois do hiato de quatro anos, os Jungle estão de regresso aos palcos com For Ever, um álbum que nos mostra uma nova faceta do grupo britânico, uma narrativa melhor e mais construtiva, mantendo a sua estética funk soul envolvida em falsetes que produzem um efeito imediato: a dança. For Ever leva-nos a abraçar o glamour da Costa Oeste, assim como as armadilhas esmagadoras da Cidade dos Anjos.

For Ever é um processo de luta e de cura, é o resultado da tragédia e novos horizontes, emoções e diferentes sabores. «Smile» é o início perfeito – do disco e do concerto –, começa como um ritmo de iniciação para uma tribo reverberante de tambores e danças. O transe hipnótico da percussão gloriosa e gradual desaparece de repente, e dá lugar a «Heavy, California» que nos atira para a pista de dança. As luzes da bola de discoteca apontam diretamente para as cordas graves que se refletem no som de sintetizadores para prestar homenagem à música de disco da década de 70. O resultado é uma canção dançante e despreocupada que repete a fórmula do trabalho de gravação anterior. O Coliseu dos Recreios está lotado, as pessoas dançam, tiram fotografias, cantam. Os Jungle atrevem-se a sair da zona de conforto e experimentam novos ritmos e géneros. Exemplo disso é o tema «Beat 54 (All Good Now)», no qual o funk, alguns elementos de hip hop hipnóticos e strings realçam uma dança suave com muita alma e vozes multiplicadas. Os humores descem quando «Cherry» avança sinuosa e sensual, ao compasso do fim de um relacionamento. Os teclados rítmicos e arranjos isolados dão um sentimento quente e noturno ao assunto. Em «Pray» uma outra explosão de cordas instala o crepúsculo do tão esperado disco dos Jungle e confirma que os arranjos de cordas são o melhor instrumento alcançado no álbum. E por falar em rezar, um minuto de silêncio em memória de «Crumbler» e «Lemonade Lake» que a banda não conseguiu tocar porque o stock de som esgotou. Mas não façamos caso, porque em «Casio» as melodias de alma dourada pingam ao longo de batidas elásticas. «House In L.A.» é esperança e escuridão, a sua instrumentação escura é um bland pop que deixa um gosto amargo na boca. De «Heat» e «Julia» a «Drops» e «Busy Earnin’», o público teve oportunidade de recordar e dançar ao ritmo de grooves sincopados, floreios instrumentais combinados com falsetes, e letras crivadas cheias de incertezas. A tempo de nos despedirmos, «Time» marcou o fim da atuação de uma banda que vem de uma cidade fria, mas que toca com o coração quente.

As receitas musicais de Jungle não mudaram desde há quatro anos: as harmonias vocais de Josh Lloyd-Watson e Tom McFarland, um baixo e um desejo funk de bateria, uma dupla de guitarra e sintetizador que trazem a alma e o toque retro que reconhecemos tão bem. Mas há lugar para experiências, como o rude despertar de um sonho americano que gradualmente se dissipa face à realidade da cidade. As letras, tristes e mais pessoais, são acompanhadas por ondas de eletro-sintetizadores e alguns acordes de piano nostálgicos. De certa forma, o ambiente oco combina com a visão dos Jungle – um ambiente carregado de hinos partidários de advertência sobre a loucura de caçar dinheiro às custas da vida, temas sujos e sons ligeiramente abafados. Os próprios Jungle são uma viagem introspetiva, longe do conforto dos nossos sofás. Enquanto o álbum de estreia da banda favorecia uma estética sombria e mística, For Ever cria um caso muito mais pessoal, onde cada música conta uma história. Ouvir Jungle é uma viagem no tempo com um mergulho num groove, é uma dança no espaço com uma alma deliciosamente retro.

 

Jungle at Super Bock em Stock, 24 de novembro

Foto: Super Bock em Stock

 

La Bohemie.

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