Os The XX deram algum ânimo no primeiro dia do SBSR.

Está dado o arranque da 24.ª edição do Super Bock Super Rock. No primeiro dia do festival, o Parque das Nações foi enchendo, um pouco a medo, para vibrar com o punk rock dos The Parkinsons, viajar desde o metal ao folk dos Parcels, dançar ao som do rock psicadélico dos Temples e do punk pop dos Vaipraia e as Rainhas do Baile, cantar a «Deixem Lá» do Filipe Sambado e os Acompanhantes de Luxo, assistir ao concerto de soul music do veterano Lee Fields e curtir o rock inglês dos The Vaccines. Também houve tempo para festejar e homenagear o artista Zé Pedro, dos Xutos e Pontapés, com o tributo «Who The F*** is Zé Pedro?» e vibrar ao som da disco house dos Mirror People (Rui Maia), da dupla francesa Justice, a britânica Mahalia e os malianos Songhoy Blues. Mas se dúvidas houvesse, foram os cabeça de cartaz The XX que concentraram o maior número de pessoas, para assistir àquele que é o sétimo concerto da banda em Portugal.

 

Ao terceiro álbum, os The XX combatem os clichés e reforçam as suas músicas com samples vocais numa troca de letras enigmáticas através de confissões mais diretas, diminuindo a sua uniformidade estética. I See You é uma porta aberta para o mundo. Em 2009, com o álbum de estreia a assumir o nome da banda, assistimos a uma revolução silenciosa, um disco que parecia uma parede de som demolida, deixando batidas perdidas, notas e frases – timidamente cantadas – espalhadas por uma sala vazia. De forma empolgada, os The XX tentavam, à sua maneira, despir a música do artifício, mas essa revolta tornou-se, ao longo dos anos seguintes, numa fórmula garantida: a insularidade e a restrição foram transformadas numa postura muito própria, e a estética extraída por jovens pretendentes a grandes produtores pop.

Quase cinco anos se passaram desde Coexist, o segundo trabalho da banda, tempo suficiente para que as coisas mudassem na casa de Romy Croft, Oliver Sim e Jamie Smith. Com novas influências, é o terceiro disco, I See You, que leva o grupo a dar o passo seguinte e o motivo é simples. Sem trair nem um pouco a sua essência, desde 2009, conseguiram enriquecer a sua proposta com um halo de modernidade e frescura que foi intuído e essencial para que a sua música não ficasse ancorada em conquistas passadas. Os The XX foram forçados a dar esse passo à frente e mostrá-lo em novas canções antes que perdessem a surpresa, antes que permanecessem confortavelmente na sua zona de conforto. É verdade que o som mais convencional de I See You não é tão cativante quanto o trabalho anterior – embora os samples vocais soem estranhamente bem ao vivo –, mas a sonoridade melancólica e minimalista, os duetos entre Oliver e Romy, os baixos sinuosos e as guitarras domésticas são mantidas, e tanto a eletrónica quanto as melodias mais acessíveis assumem um papel maior e diferente. E isso torna-se evidente assim que ouvimos a primeira música do concerto, «Dangerous». A magnífica pop em formato de deep house é a combinação perfeita entre o que os The XX foram e o que são: melodia e ritmo entrelaçados com uma eficiência capaz de elevar os espíritos com uma facilidade impressionante.

Numa Altice Arena a provar que o público escolheu o mesmo lugar à mesma hora, o palco surge sumptuosamente brilhante e sintético, composto de espelhos rotativos, uma plataforma de percussão elevada e, no início, um brilho rosa que faz lembrar um pôr do sol, mostra-nos como a luz entrou, finalmente, na casa dos The XX, pelo menos em algumas salas. Olhamos para os elementos da banda em cima do palco e parecem-nos personagens fictícias num filme de ficção cientifica ou numa peça de teatro num universo paralelo, enquanto nos provam que a «Say Something Loving» soa otimista e comercial e fazem-nos esquecer que Romy, Oliver e Jamie foram, em tempos, considerados a família Addams do pop britânico. O ritmo house quase profundo de «Lips» é a prova de que o grupo é seduzido por cadências tropicais, e a festiva «I Dare You» e o mais conhecido e cativante tema que o trio já assinou, «On Hold» resumem como fazer pop em pleno século XXI. Mas também há espaço para uns The XX mais ortodoxos como na emotiva «A Violent Noise» e o seu crescendo épico, ou em «Performance», onde surge uma Romy a solo, simplesmente incrível, a rasgar em arranjos de cordas que fazem arrepiar a pele e, logo de seguida, Oliver Sim a dedicar «Fiction» à comunidade LGBT. Os The XX abriram a sua nova casa para o mundo e, vagueando de sala em sala, mostram-nos que são uma banda nada complacente, capaz de casar com o classicismo e modernidade, presente e futuro e tocar um disco onde soam mais coesos e mais unidos do que nunca.

Fotos: Arlindo Homem

 

La Bohemie.

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