Robert Schumann: entre o génio e a loucura | Terras Sem Sombra

O nono e penúltimo encontro do Terras Sem Sombra atracou em Sines, nos passados dias 16 e 17 de junho. No concerto, que teve lugar no Centro das Artes de Sines, o grande intérprete português Artur Pizarro apresentou um repertório de extraordinária beleza, com obras de Bach, Schumann e Liszt. Sob o mote Ecos do Paraíso: Uma Genealogia do Pianismo nos séculos XIX e XX, a peça central focou-se nos Estudos Sinfónicos, do pianista alemão Robert Schumann.

 

José Vianna da Motta é um nome incontornável da História de Portugal e, no ano em que se comemoram os 150 anos do seu nascimento, o pianista Artur Pizarro, o seu mais insigne herdeiro artístico, brindou-nos com um recital imbuído do espírito do músico, em particular a Sonata em Si menor, obra da qual foi um dos primeiros e reconhecidos intérpretes. E se a efeméride está a passar quase despercebida no país, o festival Terras Sem Sombra quis evocá-la através de um ato simbólico, mas cheio de significado: Viana da Motta dedicou grande atenção ao Alentejo e a sua memória é cara à região. Mas, se aqui também nós já dedicámos críticas musicais a Ferenc Liszt e Johann Sebastian Bach, focamo-nos, desta vez, num génio que marcou o Romantismo no panorama musical europeu: Robert Schumann.

Há mais de 200 anos, nascia, no longínquo e entretanto extinto Reino da Saxónia, um génio da música e da escrita. Robert Schumann não foi devidamente reconhecido em vida e continua a ser um dos mais incompreendidos de todos os compositores, embora faça parte dos programas de música clássica um pouco por toda a parte. A verdade é que, como nenhum outro artista, Schumann personificou e encarnou a era do Romantismo musical. As próprias inovações musicais do pianista eram tão únicas, que algumas das suas músicas estão ancoradas na consciência coletiva e aparecem em anúncios e filmes sem que nós, ouvintes, saibamos que foi escrito por ele. Schumann criou formas pianísticas próprias, geralmente pequenas peças que formam um conjunto de grandes dimensões e exige do artista muito investimento técnico e emocional, tal como assistimos no concerto de Artur Pizarro. Entre as características mais marcantes da criação de Schumann, destacam-se as texturas polifónicas e contrapontísticas, com simultaneidade de linhas melódicas por vezes fragmentadas, além da polirritmia, reflexos da mente do compositor. Uma mente que deambulou entre o génio e a loucura, um corpo que viveu entre a paixão e a tragédia, não fosse o célebre compositor da era romântica sofredor de transtorno bipolar (conhecido no século XIX como transtorno depressivo maníaco).

Ao analisarmos a sua obra, fica evidente o pessimismo profundo, influenciado por Byron, e os grandes dramas que viveu. Schumann correspondeu aos parâmetros do romantismo, nos quais amores impossíveis se alternavam com insanidade, delírios e atração pela morte. Mas é impossível não referir que os Symphonic Studies Op. 13, de 1834, são um dos seus melhores e mais pessoais legados. Concebido como um verdadeiro estudo de virtuosidade – não tanto da mecânica, mas da musicalidade –, os Estudos Sinfónicos estão a meio caminho entre os de Chopin e os de Liszt. Abrimos a partitura. Num olhar rápido, notamos os graciosos insultos e marcações dinâmicas, um trinado oculto na voz tenor, a música exposta numa textura espessa, de alcance sinfónico. E, para quem não entende de Teoria Elementar da Música, o tema do Symphonic Etudes, entendido como uma obra de arte visual, é tão perfeito quanto uma impressão japonesa. Em «Thème» os acordes de abertura parecem carregar o peso da tristeza mundana; em «Vivace» as oitavas finais ainda nos agarram como Schumann, o mestre do humor contrastante que clareira os nossos sentidos com uma chuva suave; em «Presto Possible» os punhados rápidos de acordes devem soar sem esforço, mesmo quando eles se projetam e alcançam o clímax, no qual experienciamos um verdadeiro ato de desaparecimento, cortesia da magia de Schumann. E, depois de nove variações, o grande final «Allegro Brillante». A música pode ser descrita numa palavra: triunfante. O ritmo preferido de Schumann, efervescente, enérgico, propulsor da linha musical, infunde a música com um senso de direção e propósito marcantes. O padrão descendente da abertura, imbuído de uma presença agitadora, está agora voltado para o céu e Schumann parece abandonar o lado sombrio – presente no tema original – para entrar na luz através de uma nova melodia. Os acordes do movimento final são muitas vezes maciços, parecendo exigir mais de dez dedos, mas em nenhum lugar Schumann distorce a harmonia ou as vozes das nuvens. Nem Schumann, nem Artur Pizarro.

Robert Schumann era um génio ambivalente e um doente maníaco depressivo, cujo fim escuro e trágico coloriu a nossa perceção das suas obras. Somente nos últimos anos o mundo da música passou a entender melhor a produção criativa e a influência do pianista. E, curiosamente, hoje em dia a sua música está bem viva, embora continue a ser difícil de classificá-lo, porque Schumann é muito experimental, muito próximo da orla do mundo sonoro conhecido. Harmónica, rítmica e emocionalmente, ele esteve sempre muito à frente do seu tempo – fora do tempo, na verdade, olhando simultaneamente para o passado e para o futuro. Em suma, ele é um génio, diferente de qualquer outro, que tem o poder de nos conduzir para mundos jamais sonhados por qualquer outra pessoa.

Fotos: Arlindo Homem | Terras Sem Sombra

 

La Bohemie.

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