Super Hip Super Hop.

Desde que o Super Bock Super Bock regressou onde nasceu, à cidade, que assumiu um dia dedicado ao hip-hop, a cena urbana. E se este surgiu na década de 70 como um movimento cultural no sul do Bronx, foi no segundo dia do festival que se fez ouvir e sentir no Parque das Nações. Jessie Reyez estreou-se em Portugal com o seu R&B, KESO saiu do gueto, a dupla Octa Push defendeu a sua Língua, The Gift lutaram para chegar ao Altar, e Akura Naru continua a percorrer o Mundo.

 

Sobe ao palco sorridente e descontraída, mas lança-se de imediato com um «Fuck It». Foi com este tema que a artista Jessie Reyez começou o concerto no Palco EDP, música que faz parte do primeiro EP, Kiddo, editado este ano. A cantora canadiana, filha de pais colombianos, estreou-se em Portugal onde trouxe o seu R&B de cara lavada, descomplicado, a olhar para a frente, emotivo, arranhado e bem produzido. Jessie é mais Reyez, sublinhando o seu sangue latino no fundo da sua voz nasalada, com vocais intensos e que tocam o coração. O R&B confessional de Jessie Reyez assemelha-se muito ao início de carreira de Amy Winehouse pelo timbre inusitado, mas também se compara com a sua conterrânea Alessia Cara, antes de mergulhar de cabeça nos feats eletrónicos. O rouco da sua voz é muito específico, mas o cabelo escuro, a pele morena e a atitude descomprometida com o público relembra um pouco a portuguesa Da Chick. O tema «Gatekeeper», também do novo Kiddo, é uma canção dura e poderosa que confronta de forma bastante direta o sexismo e a misoginia da indústria musical, na qual a artista faz uma denúncia de um importante produtor que tentou abusar sexualmente dela em troca de sucesso. Não se trata apenas de um olhar sóbrio sobre o que as mulheres enfrentam na indústria, é um relato difícil e verdadeiramente triste. Jessie é assim, carrega na voz uma doçura que nos abraça o coração, mas aborda letras que retratam momentos difíceis neste mundo da fama que nos puxa à emoção. Já perto do final do concerto, agarrou na sua companheira de viagem, a guitarra, e percorreu o tema que a tornou conhecida, «Figures», chamando a atenção pela sua música forte e vulnerável na mesma medida.

Tu não percebes o hip-hop, disseram-me algumas vezes ao longo do segundo dia do Super Bock Super Rock. E diz-nos KESO em «RoofTops» que “se tu não sabes o nome deste menino é porque és novo nisto”. Na verdade já existe há muito tempo, com Raios te Partam em 2003, O Revólver entre as Flores em 2011, passando por um EP de instrumentais. Por isso admito: sou uma novata. Fui claramente `às cegas´ e, assim que o ouvi cantar o sombrio e pesado «Defeito Sério», percebi que é de facto um caso sério. No Palco LG, ainda com o sol a bater de chapa, ouve-se “Saí de um gueto para acabar num gueto”, fazendo referência à experiência que teve durante os meses que viveu em Londres. KESO é do Porto, mas saiu mesmo do bairro para partilhar com o mundo o mais recente álbum: KSX2016. É um disco com beats pesados, rimas poderosas, carregadas de sarcasmo e sentimento. No movimento de KESO coabitam o estilo, a acuidade e a sinceridade. Original Marginal não é tímido no que quer dizer e a mensagem passa com clareza. Continua a sua atuação com «Bruce Grove» e, apesar do tema ser o mesmo, a abordagem é mais concreta. KESO vê-se rodeado de casas e pessoas vazias. Desesperançado, completamente alienado da corrupção da cidade, acena para o sistema de câmaras que abrange todo o meio londrino. Versátil tanto na produção como na utilização da voz, é inovador, mesmo mantendo sempre um estilo, na sua essência, clássico. O artista aproveitou a plateia bem composta para relembrar temas do trabalho anterior, e eu percebi que se o hiato de cinco anos valeu a pena, o concerto valeu ainda mais. Posso não perceber o hip-hop, mas não há como não perceber o KESO.

Os Octa Push são irmãos. Na música. Na vida. No palco. Neste último, Leonardo e Bruno fundem a música lusófona e eletrónica. Têm três álbuns: Oito foi feito de uma forma descontraída sem um deadline, já Baluba foi uma tentativa frustrada  de fazer algo com um conceito mais próximo ao Língua. O último álbum da banda é uma homenagem à música lusófona feita nos últimos 40 anos, cruzando influências e ritmos contemporâneos e de diferentes latitudes. Língua tem um duplo sentido, por um lado é a língua e o idioma que nos aproxima e, por outro, é com ela que falamos, reivindicamos, gritamos. E como em qualquer língua, há falhas de comunicação – as desavenças entre dois irmãos acabam por invocar divergências criativas entre dois artistas – por isso, há que esclarecer: os Octa Push não são uma banda de intervenção, mas de celebração. Se o primeiro disco era mais polido, de cariz eletrónico e centrado em alguns temas na ideia clássica da canção, este último trabalho é um álbum mais sujo e possuiu uma estética menos eletrónica. No Língua importa apenas a ideia de fusão, querem focar apenas aquilo que ficou, as relações, a mistura. «Bárbara», «Gaia Cósmica» e «Língua» são alguns dos temas onde a música eletrónica portuguesa se cruza com linguagens sonoras como semba, morna, funaná, afrohouse e MPB.

O primeiro concerto no Palco Super Bock pertenceu à banda portuguesa The Gift. Com 22 anos de carreira, o grupo de Alcobaça é uma das bandas pop mais bem-sucedidas e pouco têm a provar. Ainda assim, subiram ao palco e fizeram de tudo para conquistar o Altar. Mas sejamos sinceros: o público do segundo dia do festival, dedicado maioritariamente ao hip-hop, não era de todo o mais apreciador deste tipo de música e prova disso foi uma sala completamente vazia. Injusto, ingrato, impensável? Talvez, mas há que dar todo o mérito a Nuno e John Gonçalves, Miguel Ribeiro e, principalmente, a Sónia Tavares que se entregou de corpo e alma, voz e coração aos poucos que lhe prestaram tanta admiração. Altar é, de longe, o melhor disco da banda e o mais arrojado. O resultado é um trabalho cheio de personalidade e complexidade na primeira parte, na qual podemos ouvir os melhores exemplos de estilos e arranjos, como as bases synth-pop da década de 1980 do tema «Clinic Hope», a pop animada e dançante de «Big Fish», o toque gospel de «Malifest» – uma música rápida, direta e abrasiva – ou a emocionante e potente «Love Without Violins». Na segunda parte do disco abranda-se o ritmo e perde-se alguma energia e emoção no espetáculo. Mas quem realmente conhece e ouve os discos dos The Gift – e não faz opinião formada apenas por uma canção – não ficou surpreendido. Além de todo o reportório centrado no novo Altar, relembraram na MEO Arena uma das canções mais conhecidas e celebradas pelo público, «Driving You Slow», do álbum AM-FM (2014) e «The Singles», do disco Explode (2011). Um concerto que tinha tudo para ser formidável. Só faltou o público.

Akua Naru, que dá voz consciente sobre uma fusão de hip-hop e jazz, carrega consigo a bandeira dos Estados Unidos. Foi lá que nasceu, mas já atravessou o oceano para viver na China e agora tem morada na Alemanha. Akua Naru tem um olhar sem fronteiras. Akua Naru é do mundo e o mundo é de Akua Naru. Lançou em 2011 o seu disco de estreia, The Journey Aflame, no qual assume de forma madura e consciente que as características da sua música são resultado dessa constante viagem pelo mundo. No concerto que deu no Palco EDP percebeu-se que a sonoridade da música que criou é um reflexo de todas essas experiências, o que vem da sua cultura, todas essas culturas que viveu, todos os lugares que visitou e todas as pessoas que encontrou. A música gospel marcou o início da vida de Akua Naru, mas agora a artista norte americana carrega nas veias e na voz o hip-hop, o jazz e blues, o reggae e até o rock’n’roll que se misturam num certo flow. Ao ritmo contagiante de Naru, somam-se as letras carregadas de intervenção social, as palavras são uma preocupação especial, o rap é poesia. Defensora da “herstory”, projeta nas suas canções os ideais feministas e relata o que sente na pele, por ser uma mulher a fazer rap. Para ela, o hip-hop é tão sexista quanto a sociedade em que está inserido. O mundo é um ambiente sexista, digo eu. Já no disco The Miner’s Canary (2015) é notório o poder do rap, um movimento global que une as pessoas apesar das diferenças de etnias, culturas e classes sociais. O rap continua a dar voz a quem não tem voz. E Akua Naru usa a voz para fazer rap e mudar o mundo.

 

Sem dúvida que Slow J foi rei no segundo dia do Super Bock Super Rock. Podes ler a reportagem AQUI.

La Bohemie.

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