Terras Sem Sombra desvenda os mistérios d’ O Castelo de Barba Azul.

Ao quarto encontro do festival Terras Sem Sombra escalámos as muralhas da Basílica Real de Nossa Senhora da Conceição, em Castro Verde, para assistirmos à famosa ópera O Castelo de Barba-Azul, com música de Béla Bartók e libreto de Béla Balázs. Interpretada pela Academia Franz Liszt, de Budapeste, esta ópera de um acto foi inspirada num famoso conto de Charles Perrault e encerra uma reflexão profunda sobre a sociedade actual e a dificuldade de integração do indivíduo, tantas vezes condenado pelo seu próprio individualismo à solidão.

 

A ópera começa na escuridão total. O cenário, que gradualmente se torna visível após a entrada de Barba Azul e Judite, é um imenso hall no interior do castelo, com várias e enormes portas colocadas nas suas frias e sombrias paredes. Naturalmente é preciso recorrer à imaginação, porque esta ópera não tem orquestra, o hall é apenas um grandioso altar, e a Basílica, também ela fria e monstruosa, representa o sombrio e triste castelo. Em palco, um volumoso piano de cauda conduz-nos por uma intensa e misteriosa melodia. Judite está encantada com Barba Azul, feliz em abandonar a sua família e em confiar-lhe a responsabilidade das suas finanças e sustento. Quando olha em seu redor e percebe rapidamente que o castelo não passa de um lugar escuro e gelado, declara impulsivamente ao seu amado que trará calor, brilho e amor para este que é agora o seu lar. Mas o Barba Azul garante-lhe que o brilho nunca poderá penetrar a escuridão do castelo. De repente, parece que somos transportados para o conto d’ A Bela e o Monstro e deixamo-nos envolver em tamanha imaginação. A música de Bartók é marcadamente envolvente, criando um misto de ambiente sinistro e acolhedor, muito longe de ser incomodativa a ouvidos menos preparados, como outras composições da mesma altura temporal (1918).

Foto: Carlos Valadas

Existem sete portas trancadas à chave e Judite exige que sejam todas abertas. Mas aquele que representa o número perfeito esconde um temível drama psicológico. O que encontrará a bela e inocente jovem por trás de cada porta? E que terrível segredo esconde a sétima porta que o rico e poderoso Barba Azul pediu para não abrir? Recusando-se a admitir o medo, Judite insiste que o seu amor lhe dá o direito de destrancar as portas. Como que hipnotizado por tal devoção, Barba Azul concorda e começa, assim, uma viagem poderosa, intensa e totalmente emocionante. Apollónia Szolnoki interpreta Judite e as suas cores vocais são arrebatadoras – escuro, aveludado, áspero, persuadindo toda uma panóplia de tirar o fôlego. A sua resposta à abertura de cada porta é esmagadoramente vulnerável. Por outro lado, o Barba Azul de Antal Cseh é tímido e arrependido, embora carregado de desejo. O seu desempenho subtil é convincentemente inconclusivo, uma vez que a expressão facial e a linguagem corporal são menos expressivas ao longo do concerto. András Rákai conduz no piano todo o drama com delicadeza de forma magistral.

Foto: Carlos Valadas

A primeira porta abre-se para a câmara de tortura do Duque Barba Azul – paredes frias e húmidas, grilhões, adagas, estacas e ferros incandescentes, mas o surgimento gradual do sol nascente contesta a apreensão de Judite convencendo-a de que abrir as outras portas afastará o horror e de que a luz do dia iluminará o triste castelo. Atrás da segunda porta, a jovem inocente descobre o arsenal de Barba Azul e, apesar das manchas de sangue nas armas horrendas e bárbaras, não se deixa afectar pela ansiedade, exigindo as restantes chaves com urgência crescente, proclamando que o seu amor é mais do que suficiente para que ele compartilhe tudo consigo. A terceira porta abre-se sobre o brilho dourado do tesouro do Duque, e Judite exulta na beleza e riqueza de tudo aquilo que ele promete ser seu um dia. Inevitavelmente, o brilho dos seus olhos dissipa-se enquanto o sangue mancha as jóias brilhantes, e agora é o próprio Barba Azul que encoraja Judite a abrir a quarta porta que a leva para uma cena ainda mais radiante: um jardim em plena floração – lírios enormes e esplendorosos, rosas de fresca brancura, cravos de carmim reluzente. Muito cedo as flores são salpicadas de sangue e com a agitação de Barba Azul cada vez mais intensa, Judite destranca a quinta porta. Em plena luz solar, deslumbra-se com a vista sobre o reino branco de Barba Azul. Judite está atónita com os prados sedosos, bosques de veludo, correntes fluviais em prata e picos azulados no horizonte. De seguida, uma nuvem manchada de sangue começa a apagar o sol e, apesar do amor ser inabalável, Judite sabe que ainda faltam duas portas por abrir. Atrás da sexta porta encontra-se um lago de lágrimas e de escuridão, lágrimas de brancura etérea e límpida, silenciosas e imóveis e um grande lamento cresce nas palavras que a meio-soprano Szolnoki e o baixo-barítono Cseh ecoam, acompanhados pelo pianista Rákai. O poderoso Barba Azul parece acreditar que a inocente e doce visão de Judite – como quem transmite luz e esperança – pode, afinal de contas, tornar-se realidade, mas esta insiste em descobrir o que esconde a misteriosa sétima porta. E a verdade é só uma: encontra as três anteriores mulheres, paixões antigas, aquelas que outrora o Barba Azul amou, representando a madrugada, o meio-dia e a noite. Judite simboliza a meia-noite, a profunda e absoluta escuridão, estrelada noite de ébano, rosto de brilho luar, cabelo moreno sob céu límpido. As portas fecham-se e o Barba Azul fica sozinho, entregue novamente à sua solidão. A escuridão que Judite não conseguiu dissipar desce com inexorável finalidade e as palmas do público, belas e formosas, agradecem doravante a noite eterna.

Foto: Carlos Valadas

«Não há duas estrelas tão distantes como duas almas humanas». A única ópera de Bartok, O Castelo de Barba Azul, é tão simples como um conto de fadas e tão rica em complicações domésticas quanto uma telenovela em horário nobre. Um homem rico e poderoso conquista uma jovem bela e inocente, cuja maneira de expressar o seu amor é insistir em abrir todas as portas do seu passado. «Quem amastes antes de mim?», pergunta Judite com alguma timidez a Barba Azul. Como qualquer espectador de telenovelas sabe, este tipo de intromissão, persuasão e interrogatório constantes invariavelmente terminam em apuros, discussões e respostas que não se quer ouvir. E assim acontece com Judite, a esposa insaciável, sensível e curiosa retratada musicalmente na lenda do Duque Barba Azul, quando descobre que toda a verdade nunca passou de uma cruel mentira. Apesar de ser desconhecida a sua origem temporal, esta lenda explora os atributos psicológicos que dominam o comportamento humano desde tempos imemoriais que jogam um papel determinante em qualquer relação: a confiança e a capacidade de resistir à tentação.

Fotos: Carlos Valadas

La Bohemie.

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