Terras Sem Sombra – uma lufada de ar fresco.

Quando partimos de Lisboa no sábado, às 10 da manhã, o ar quente da capital já fazia prever o quão iríamos sofrer com as altas temperaturas do Alentejo. Protetor solar nos braços, chapéus de sol na cabeça e muitas garrafas de água para a viagem. Íamos a conversar, a cantar, a rir, a fazer diretos para as redes sociais e a recordar toda esta longa e maravilhosa aventura no festival Terras Sem Sombra.
       Porque jamais imaginámos o que aí vinha
À tarde visitámos o Comando Territorial da GNR, em Beja. Apesar de não ser habitual, tivemos o privilégio de poder ver e compreender como funciona a sala de controlo e vigilância. Porque é isso que o Terras Sem Sombra nos proporciona, viver o que poucos têm a oportunidade de conhecer. Ao mesmo tempo que olhava fascinada para os vários ecrãs, onde os oficiais controlam todas as operações em curso no país, escutei várias vozes de ordem através do rádio que se encontrava em cima da mesa. O guarda, que nos contava a história daquela pequena mas importante sala, rapidamente retirou-lhe o som e disse que havia um incêndio. Depois da breve distração, os meus olhos voltaram-se para a parede e focaram-se com maior precisão nos vários pontos de cores diferentes assinalados no ecrã principal. Perguntei a um cabo o seu significado e só me recordo de responder «estes são de um incêndio que começou agora no centro do país». Pensei que era só mais um.
       Porque jamais imaginei o que aí vinha
Depois da visita, enquanto aguardávamos pelo resto do grupo na rua, o céu pintou-se de cinzento escuro e a trovoada seca que se ouvia ao longe intensificou-se, cada vez mais perto. Parecia um filme de terror. Sesta breve. Duche gelado. Saímos do hotel para jantar e fomos confrontados com uma terrível tempestade de vento quente. Suplicámos por chuva porque 41°C em Beja parecem 51°C no corpo, mas contra nós chegava apenas pó, folhas e lixo que se entranhavam nos olhos. Chegou a hora do concerto e sentei-me lá bem no alto da igreja com uma vista privilegiada, mas estava desconfortável. Cerca de 500 pessoas encheram a Sé de Beja para assistir ao último concerto do Festival, com o Coro da Gulbenkian a interpretar Bach, e eu tinha dores nas costas, alguma sede e muito calor. Passei os olhos pelo Twitter para me distrair e engoli em seco.
       Era assustador o que estava a acontecer
Um incêndio de grande escala em Pedrógão Grande havia provocado 19 mortes. Apeteceu-me partilhar aquela notícia, aquele sufoco, aquela dor, com toda a gente, mas não podia. Sentia-me triste, derrotada, impotente. Enquanto pessoas perdiam tudo, enquanto pessoas morriam dentro dos carros por inalação de fumo, queimadas vivas, sem dignidade, eu estava ali, bem longe, a ouvir os motetes e prelúdios de Bach. Depois do espetáculo, reunimo-nos todos de volta de uma mesa cheia de comida e bebidas para a nossa última ceia. O Miguel perguntou-me de imediato o que se passava comigo, mas eu não conseguia falar, estava incrédula, revoltada. No fim, comecei finalmente a partilhar a informação com todos os jornalistas. Estava longe, mas a dor sentia-a ali perto, no meu peito. Tínhamos connosco uma correspondente francesa e, certamente, esperavam-lhe muitas horas de trabalho. Regressei ao hotel, liguei o ar condicionado e fiquei a ver os diretos, horrorizada, até adormecer.
       Já não queria acreditar no que tinha acontecido
Na manhã seguinte, o ar era pesado. Quente. Sufocante. De 19 mortes, passaram para 42, 56. O número iria aumentar a qualquer momento. Todos trocávamos informações, víamos imagens e vídeos, líamos as piores notícias e os testemunhos mais assustadores. A jornalista Marie-Line Darcy, a tal correspondente francesa, ficou no café a fazer chamadas desenfreadamente para todos os meios, a escrever notícias para vários jornais internacionais, relatos em direto de algo que também ela jamais havia imaginado que pudesse acontecer. Nós prosseguimos para a nossa visita da salvaguarda da biodiversidade, sob um sol aterrador, ao mesmo tempo que o centro do país ardia. Assim que chegámos ao Guadiana, descalcei as sapatilhas e refresquei os pés, a alma e o coração. Contive a emoção. Brinquei naquela água, enquanto parte do meu país ardia. «Este rio é uma bênção», comentei com a minha querida amiga Lourdes, enquanto agradecia pela sorte que tinha em estar viva, bem longe do terror, ali dentro daquela água.
       Feliz, mas a chorar por dentro
Além da música e das visitas ao património histórico, o festival Terras Sem Sombra assume a enorme responsabilidade da salvaguarda da biodiversidade. Ao longo destes seis meses, aprendemos a proteger o nosso território e a dar-lhe uma oportunidade para sobreviver, florescer e crescer. Aos longo destes seis meses, estas minhas mãos – e as de todos os que fazem do Terras Sem Sombra um festival de prestígio – mexeram na terra e plantaram centenas de sobreiros e medronheiros em zonas também elas outrora afetadas por incêndios, também elas a morrer com falta de florestação importante para a sobrevivência das espécies. Ao longo destes seis meses percorremos a Serra do Caldeirão e a Serra de Ficalho, descemos o Rio Mira e conhecemos o Rio Guadiana, fizemos a tosquia às ovelhas de Castro Verde e analisámos a água do Sado. Ao longo destes seis meses, eu e muitos de nós, fizemos parte de várias atividades ambientais cruciais para evitar que o nosso país morra lentamente, para que parte do nosso território possa viver com a dignidade que as pessoas que morreram este fim-de-semana não tiveram. Ao longo destes intensos e importantes seis meses fizemos muito. Fizemos tanto.
       Porque mais importante do que encontrarmos culpados, é arranjarmos soluções 
Por isso, que me perdoem os diretores e todos os responsáveis pelo projeto, mas eu não consigo responder – a quem me pergunta – que o Terras Sem Sombra é um festival de música sacra. Porque o Terras Sem Sombra é, para mim, um festival de humanismo. Feito de pessoas para pessoas. Ao longo destes meses também eu perdi quem amo, fiquei doente, senti dores, suportei barreiras físicas e psicológicas, superei-me. E nunca me deixaram desistir. Dei tudo de mim. Aprendi muito, fiz o que me explicaram, o que me ensinaram, fiz o que me deram liberdade para fazer. Orgulhei-me. Ao longo destes meses mostraram-me, cada um à sua maneira, que eu podia ser melhor pessoa, devolveram-me a auto-estima e o amor que achei ter perdido. Deram-me tanto. Ajudaram-me tanto. Ao longo destes meses, cada uma das pessoas com quem me cruzei neste festival, fez-me perceber e acreditar que posso fazer muito mais pelo meu território, que todos nós devemos fazer tanto mais pelo nosso país. Porque naquele domingo, enquanto molhava os pés no rio e dezenas de pessoas morriam com falta de água, eu consegui sentir uma lufada de ar fresco. Consegui agarrar-me a uma qualquer força interior e acreditar que desta vez vamos mesmo mudar, vamos fazer mais e melhor, vamos honrar todos aqueles que morreram e sofreram. O meu sincero agradecimento a todos os envolvidos no festival por me terem ensinado a proteger o que é nosso, por terem sempre respeitado e congratulado aqueles que lutam e batalham por aquilo que é de todos nós, Portugal.
       Obrigada
La Bohemie.

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