Tinder Surpresa.

O Tinder é uma espécie de Kinder Surpresa, nunca se sabe muito bem o que é que vai sair dali. Se a surpresa for horrível, pelo menos temos sempre o chocolate para comer. Foi mais ou menos assim que me falaram do Tinder, a aplicação que, apesar de não ser nova, continua a ser a sensação do momento. O Tinder, que está diretamente ligado ao nosso Facebook, não é nada mais do que um dating site que nos apresenta um autêntico cardápio de homens ou mulheres de todos os géneros e feitios que, além de partilharem os nossos gostos, estão na mesma localização geográfica que nós.

Desde que o Tinder passou a ser assunto constante em todos os jantares, encontros e saídas com os meus amigos não me despertou a mínima curiosidade. A verdade é que nunca fui muito a favor de encontros marcados virtualmente, não tenho a mínima paciência para conversas de circunstância e também não tenho vontade de responder sempre às mesmas perguntas, como se estivesse numa montra pronta a vender-me. Desde o início olhei para o Tinder como um moroso leilão onde esperamos por quem dê mais e nos leve para casa debaixo do braço. Sim, o Tinder já não tem apenas a conotação sexual e é usado para as mais diversas necessidades. Em conversa com várias pessoas percebi que há quem o use para simplesmente alimentar o ego, para ter apenas uma conversa momentânea e superficial, para viajar e encontrar uma simpática companhia numa cidade ou país desconhecido, para passar o tempo monótono e aborrecido ou até mesmo para arranjar boleia para ir fazer surf. Apesar das mais variadas desculpas para usar o Tinder, nunca consegui entender por que precisam as pessoas de dates todos os fins-de-semana ou como conseguem arranjar um namorado através de uma aplicação. Ah e tal, «hoje em dia não há tempo para sair e conhecer pessoas», «já ninguém se senta numa esplanada sozinha à espera que apareça um potencial namorado», «os homens nos bares só metem conversa connosco porque nos querem comer», oiço vezes sem conta. Então, e para andarmos no Tinder a meter conversa com as pessoas já há tempo? Não estamos sentados no sofá à espera que apareça alguém a meter conversa connosco no outro lado do ecrã? Chegámos mesmo ao ponto de nos ser aborrecido ir a jantares e a festas e conhecermos os amigos dos amigos e, quem sabe, termos uma conversa que pode durar uma noite inteira? Farta de perguntas sem respostas que me convencessem, deixei-me apoderar pelo meu aguçado sentido crítico e resolvi testar a aplicação. Criei uma conta no Tinder e durou três horas. Sim, eu sou um caso perdido!

Rapidamente comprovei o que sempre achei: o Tinder não é a minha cena. Mas vamos por partes. A palavra fundamental do Tinder tem apenas cinco letras: match. Esqueçam a rejeição e os homens sinistros que nos perseguem durante dias a fio com indiretas que nunca se afastam do velho cliché «gostava de te conhecer melhor», «és muito gira», «tens fotos espetaculares». Aborrecimento total!  Nesta aplicação só entramos em contato com quem queremos e até querermos. «We’ll always have block». É simples. Primeiro, navegamos pelo leque de fotografias de homens que o Tinder seleciona de acordo com o nosso perfil. Ou não, ou não, senhores!. Depois, temos duas opções: para a direita é porque gostamos, para a esquerda é porque não estamos minimamente interessados. E aqui é importante não trocarmos a direita com a esquerda como fazemos na estrada porque pode dar acidente. Se alguém de quem gostámos, também tiver gostado de nós, dá-se o match. As novas atualizações disponibilizam um coração e uma estrela muito pirosos para quem está desesperado por atenção. E, por fim, temos a opção do chat onde tudo acontece: «Oi. Dttc?». «Lx et?». «Act ou pass?». Sim, o chat do Tinder parece um autêntico mIRC, mas agora tem a opção de gifs para que a conversa seja um pouco mais animada. Escolhi três fotografias do meu Facebook, partilhei o link do meu Instagram, e sobre mim só escrevi o nome do meu site, porque em tempos de crise (emocional) há que vender o nosso peixe. Ainda meio perdida nas funcionalidade do Tinder, começo a receber pedidos de amizade no Facebook, mensagens e seguidores no Instagram. «Stalkers, stalkers everywhere!». Ao fim de três match e três conversas no chat desisti. «Perdi a cabeça. Que raio fui eu fazer? O que é que eu respondo? De onde é que esta criatura apareceu? Como assim se quero conhecer-te? Já? Tipo, agora? Como é que elimino a conta?», interroguei-me constantemente. A minha curta experiência no Tinder foi um autêntico desastre. Em poucos instantes desisti do meu objetivo e não consegui trocar mensagens nem marcar encontros com completos desconhecidos que acharam piada à minha fotografia de perfil. Fiquei verdadeiramente assustada com a rapidez com que as pessoas metem conversa e marcam encontros, assim do nada. Senti-me uma presa fácil, uma peça de roupa da Balmain à venda na H&M, mas sem a parte de andarem à paulada e a puxar cabelos por minha causa.

«Escolher um parceiro pela fotografia é, no mínimo, superficial. Mas verdade seja dita, é um privilégio entrar numa rede social especializada em encontros que, à partida, evita que sejamos incomodados por quem não nos interessa minimamente. Além disso, é impossível negar que a primeira coisa que nos chama a atenção numa pessoa não é nem a conversa agradável nem a amabilidade». Se a aparência não nos desperta a mínima atenção, nada feito. Foi precisamente sobre esta faceta superficial do Tinder que o jornal The New York Times escreveu: «A aplicação limita-se a espelhar como as coisas funcionam na vida real. A avaliação do aspeto físico vem sempre em primeiro lugar». Depois de explorar muito vagamente a aplicação arrumei-a algures numa prateleira inatingível da memória a que só espero voltar a recorrer em momentos de profundo aborrecimento. Desculpa Tinder, mas não gostei da surpresa.

La Bohemie.

2 thoughts on “Tinder Surpresa.

  1. Mas que devaneio mais mal parido…

    A Mafalda foi experimentar, teve 3 chats, desistiu e veio divagar para a net sobre o que é o Tinder. Mas, pelo artigo escrito, demonstra que a sua fase de experimentação não contemplou de todo sequer ter uma mente aberta, o que sabotou logo de início a experiência porque já estava a assumir o pior.

    Nem todos os homens se sentem confortáveis em ir a bares só para o engate.
    Nem todos os homens andam à procura de uma mulher “só para comer”.
    Nem todos os homens andam à procura de dates todos os fins de semana.
    Nem todos os homens se prendem com a mesma lengalenga de conversa ou partem para um autêntico interrogatório.

    No entanto, dou-lhe razão num ponto, que não fez mas que teria feito se tivesse usado mais tempo a experimentar, é extremamente dificil filtrar até finalmente conseguir fazer match com um homem decente.

    Um bem haja

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *