Um Super Bock marcado pelo Super Hip Hop

Durante três dias, que passaram num abrir e fechar de olhos, o Parque das Nações recebeu cerca de 56 mil festivaleiros – dados da organização – e mais de 40 artistas nacionais e internacionais.

Foto oficial SBSR

O Super Bock Super Rock arrancou quinta-feira da melhor maneira. Desde Samuel Úria, a Jamie XX, passando por RIOT e terminando em The National e Disclosure. Os irmãos britânicos tiveram mais uma vez problemas técnicos, não se deixando embaraçar com isso. Voltaram rapidamente ao palco, poucos minutos após o início do concerto confiantes para deixar o público português sem fôlego. Grandes concertos e um ambiente bem urbano e festivaleiro fizeram-se sentir naquela que é, pelo segundo ano consecutivo, a casa do Super Bock. Dia 15, sexta-feira, não posso deixar de referir os concertos de Pista, Capitão Fausto – que até por Iggy Pop chamaram –, Moullinex, Mac DeMarco, Bloc Party, o já referido senhor da noite Iggy Pop e os grandes mensageiros Massive Attack & Young Fathers. Estes últimos apresentaram títulos dos media no ecrã como “Luciana Abreu vítima de burla”, “Portugal torna-se campeão europeu”, “A equipa portuguesa foi a mais tweetada de todo o Euro 2016″, entre outras mensagens relacionadas com Kim Kardashian e a filha de Mourinho. Futilidades à parte, importante referir os títulos realmente importantes que documentaram tragédias ou sérias movimentações políticas, como as mais variadas menções ao Brexit. Nota-se que a banda é crítica da gestão presente dos grandes meios de comunicação. Muita tinta já correu sobre estas grandes performances na 22.ª edição do Super Bock Super Rock. No entanto, o grande destaque vai, sem dúvida, para o último dia.

Foto oficial SBSR

Apesar do festival lisboeta ter como mote “o Parque do Rock”, sábado não foi, de todo, do rock. O hip hop reinou no Parque das Nações. Confesso que dias antes de começar o festival, estive para ouvir a nova revelação nacional, Slow J, no entanto, achei que devia esperar por vê-lo ao vivo. Com Fred Ferreira na percussão e Francis Dale nas teclas, J abriu o Palco Antena 3 com uma multidão a preencher todo o espaço disponível para ver o artista em palco. Rendido, J afirma: “Nunca na minha vida fui tão bem recebido. Hoje cumpro mais um sonho: tocar no mesmo dia que Kendrick Lamar.” O rapper português confessa ainda que estava com medo de ter uma menor afluência devido ao seu concerto ser o primeiro, mas a malta do hip hop é rija, como afirmou Slow J, arrancando alguns sorrisos após esta confissão em jeito de piada. Mike El Nite também foi uma boa surpresa. Notou-se que é um artista atento ao público e ao espaço onde vai atuar. Durante os três dias o público, principalmente jovem, de volta e meia entoava o cântico da vitória da seleção nacional no Euro 2016 “e foi o Éder que os f@&%#.” Mike, sem grandes demoras, de camisola de Portugal vestida, canta acompanhado por um instrumental esse cântico sobre Éder, levando o público ao delírio.

Os Orelha Negra abriram o Palco Super Bock mas sem deixar cair a cortina. Vêem-se as silhuetas de Samuel Mira, Fred Ferreira, Dj Cruzfader, Francisco Rebelo e João Gomes com um inteligente jogo de luzes. Parece quase uma introdução, aguardando que a sala se vá compondo visto que são os primeiros a subir ao palco da MEO Arena. Contam-se 10 minutos, a sala já praticamente cheia – para a hora em questão – os Orelha Negra cumprimentam o público com o sample “Meu people, Lisboa! Quero ouvir barulho!” e baixam, por fim, a cortina. Seguiram-se todos os grandes sucessos da banda portuguesa, desde «Throwback» até ao instrumental de «Solteiro». “Isto é o passado no futuro. ON 2016″, garante o sample seguinte. Esta é, com certeza, a missão de Orelha Negra. Pegar nas marcas que o passado deixou e transformá-las que nos atiram a todos para o amanhã. Perto do fim escuta-se o novo single, «Parte de Mim». Não se esperava outra coisa destes cinco rapazes. É “ON 2016″!

Por fim, e não menos importante, chega a estrela da noite. Se a organização se pode orgulhar de ter esgotado o último dia de Super Bock Super Rock deve-se, com 100% de certeza, a um só nome. Uma só pessoa. Um monstro em palco com apenas 29 anos. Chama-se Kendrick Lamar. Ou King Kendrick. Como preferirem. O rapper conseguiu preencher a MEO Arena. Cerca de 20 mil pessoas de olhos postos nele. Foi, sem dúvida, um momento histórico numa celebração de hip hop, mas também de soul e jazz e principalmente da vida. No “backdrop” nas suas costas ficou no ecrã o concerto inteiro a frase “Look both ways before you cross my mind” de George Clinton, uma influência para o artista de Compton. Toda a performance torna-se incrível com o controlo que possui sobre a banda, fazendo sinais para parar e retomar, controlando assim os seus versos e deixando a sua mensagem pairar sobre aquela sala completamente lotada. Perplexo e emocionado com o que se passava à sua frente, 10 minutos após entrar em palco pára para observar a multidão. Depois de alguns êxitos como «Swimming Pools», «m.A.A.d City» e «Money Trees» sem esquecer «Bitch Don’t Kill My Vibe», o Mr. Lamar volta a parar o concerto e enquanto era aplaudido pelos fãs portugueses ficou rendido e benzeu-se, seguido de um beijo para todos nós. Acredito que cada pessoa dentro daquela sala diante de Kendrick o sentiu, de uma forma ou de outra. Em jeito de agradecimento. De bênção por estar a viver aquele momento connosco. Um concerto não decorria de forma normal nesta edição do Super Bock Super Rock se o público não cantasse, mais uma vez, o cântico oficial do festival “e foi o Éder que os f@&%#.” Kendrick puxou pelo público enquanto este saltava de forma ritmada. Tocou no coração e agradeceu. Mais tarde desaparece. A banda volta, puxa pelo público e dança em cima do palco. O rapper volta com «King Kunta», «I» e «Alright» e ainda com a banda a lançar as últimas notas dirige-se para os fãs portugueses: “I’ll-be-back.”, prometendo voltar. E desaparece. Como se não fosse real. Mas é. E esperemos que cumpras essa promessa, King Kendrick. Todos queremos voltar a ver-te em solo nacional.

O balanço destes três dias de festival é bastante positivo. Apenas uma questão se coloca: está o Super Bock a perder a sua veia de Super Rock? Deixará de ser “o Parque do Rock” e passará a ser “o Parque do Hip Hop”? Pode parecer exagerado. Mas olhemos para os números. Para os dias. Para os géneros e os estilos musicais. Quem organiza um festival tem como objetivo que todos os dias sejam como dia 16 de julho. E isso é possível. Com este género de música que em Portugal começa a ter cada vez mais ouvintes e espaço no panorama artístico português. Parece-me (finalmente) que deixou se ser considerado o estilo do gueto, underground. Também o há, de facto. Mas o hip hop é para todos. E cada vez se espalha por mais pessoas. A prova disso foram as 20 mil que passaram pelo MEO Arena naquele mítico sábado no Parque das Nações. Obrigado Kendrick.

Foto oficial SBSR

La Bohemie.

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