Vodafone Mexefest | Primeiro dia

A chuva parecia prenunciar um Vodafone Mexefest molhado e abençoado, mas o São Pedro deu tréguas na primeira noite do Festival e os casacos quentes e robustos contrastaram com o calor humano que se fez sentir nas inúmeras salas com lotação esgotada. Foram muitos os talentos que preencheram o cartaz desta edição e o primeiro dia arrancou com 33 atuações de 29 artistas distribuídos por 13 palcos. Com pronúncia brasileira e alma portuguesa, MoMo convidou o pequeno grande Camané para um concerto que sambou no fado. Os amantes do indie surpreenderam-se com os Washed Out e a sua atmosfera tropical, e o público rendeu-se à eletrónica de Surma que é já comparada com a artista Björk. Depois da poesia inconfundível de Manel Cruz e o jazz misturado com o soft rock dos Destroyer, Samuel Úria carregou no ombro as vozes inigualáveis de Gisela João e Ana Bacalhau. Para terminar a noite, uma das melhores bandas portuguesas da atualidade: os Orelha Negra.

 

Ainda não existem iluminações na  Avenida da Liberdade, mas o vermelho é a cor predominante durante os dois dias do Vodafone Mexefest naquela que é uma das maiores artérias da cidade. Há castanhas assadas e achocolatado quente, no Vodafone BUS toca a banda El Señor, e as ruas que acolhem o Festival são invadidas pela festividade e harmonia dos Kumpania Algarzarra. A procura de música nova em uníssono com a descoberta de alguns dos espaços mais emblemáticos da cidade, faz do Vodafone Mexefest um dos festivais mais cool do outono, com um carisma incomparável e um ambiente tão dinâmico quanto o movimento do público que se desloca de sala em sala. Enquanto muitos aguardavam por uma oportunidade para assistir ao lotadíssimo concerto dos Fogo Fogo na Casa do Alentejo, decidimos iniciar a nossa primeira noite de atuações com o concerto de MoMo. Marcelo Frota vem do outro lado do Atlântico mas é em Alfama que se sente em casa. Depois de ter conquistado o mundo com quatro discos, viajou até à Sala Manoel de Oliveira, no Cinema São Jorge, para apresentar o seu voo mais maduro, Voá. Um disco alegre, confortante de ouvir, como se o artista nos confidenciasse sensações e histórias que só se contam a um velho amigo. A voz de MoMo transita pela harmonia com mais transparência e contundência, e os diversos estilos tornam o disco multicultural, portador de vários caminhos. Há bossa-nova, há samba triste, há fado, música em inglês, música em português, requinte quando se pede requinte e simplicidade quando se pede simplicidade. Apaixonado pela luz de Lisboa, uma luz que ilumina tantas canções, entre o fado e o samba, entre o mar e o quotidiano do bairro, Marcelo espanta a melancolia de álbuns como o anterior Cadafalso (2013) e, em simetria, abraça a vida no poético alvorecer lusitano, enlaça Lisboa num amanhecer poetizado em «Alfama», tema que alberga as sensibilidades do brasileiro e o canto português a quem Camané dá voz e corpo à música, entre violão e respingos de vibrafone. Se é samba ou fado, não sabemos. Mas a questão torna-se irrelevante quando tudo ali no palco é obra de um só artista, íntegro.

Um pouco mais abaixo, na rua das Portas de Santo Antão, os Washed Out faziam as hostilidades da casa ao abrir o Palco do Coliseu dos Recreios. Ernest Green é o responsável por um dos projetos mais acarinhados pelos melómanos indie de todo o mundo e autor dos discos Within Without e Paracosm, carregados de uma eletrónica ao serviço de belas canções, identificadas com o chillwave ou a dream pop. Agora, de regresso a Portugal, o artista norte-americano apresentou o recente Mister Mellow, um registo onde o músico procura novos caminhos para a sua música, com uma atmosfera tropical e um subtil convite à dança. A música como um refúgio, a música como alívio ao stress do dia-a-dia, a música como uma droga ou um complemento para as drogas: Ernest Greene sempre abraçou essas funções com uma pitada de ambivalência. Os temas, repletos de sintetizadores adornados por samples de Bossa Nova ou guitarra havaiana, tornam difícil distinguir qualquer intenção que contradiga daquela que ouvimos no anterior Paracosm. E se a atitude de Green remete à pretensão de uma visão privilegiada do mundo, pouco dessa tonalidade sobrevive à música de Mister Mellow, que soa apenas como uma alternativa ainda mais espaçada e derretida do que o músico vinha a fazer até então. Contudo, quatro anos após o lançamento do último disco – uma imersão em saudade sonora introspetiva –, Mister Mellow chega quase como um álbum visual, com vídeos para cada faixa. Os visuais não são uma narrativa, e certamente não são uma montra, mas ao vivo complementam um show de luz, uma coleção de animações pulsando a cada música, ecoando os devaneios de cada uma delas. Arrisco até dizer que o projeto audiovisual que acompanha todo o concerto é uma autêntica paródia, na qual o multi instrumentista embarca numa viagem musical preenchida de um patchwork brilhante de animações artesanais trippy de artistas como Winston Hacking e Harvey Benscoter, que retrata verdadeiramente aquilo que Washed Out é: uma imersão hipnótica que se apropria de trabalhos alheios para reorganizá-los dentro de sua própria estética. A preguiça, o tédio e a completa apatia são as principais temáticas, e, no entanto, há tanto mais a acontecer em cada tema. Ao longo do concerto, a voz de Green é apenas uma parte modesta da mistura para torná-la mais remota e impessoal, e as produções soam densamente em camadas com percussão, teclados e eletrónicos. Mister Mellow nem sempre é o tal tranquilizante auditivo que as suas letras pretendem evocar, as músicas, para todas as suas complexidades leiras e prismáticas, são remotas e desamparadas e os voice overs são muitas vezes apenas lembranças intermitentes de uma vida quotidiana a que o artista apenas deseja escapar. Quanto a nós, nós nos apeteceu dançar.

Numa correria desenfreada e de volta ao topo da Avenida, espreitámos o concerto de Surma no Cinema São Jorge. Lá fora está frio, mas lá dentro, na Sala Montepio, Débora Umbelino transporta-nos para locais exóticos. Surma é o seu projeto one-woman-band, que em palco torna-se uma extensão dos instrumentos que a circundam e nos leva numa viagem transcendente com a sua música. Depois de se estrear no ano passado com Maasai, surge agora o álbum de estreia, Antwerp, onde domina teclas, samplers, cordas, vozes e loop stations em sonoridades que fogem do jazz para o post rock, da eletrónica para o noise e nos conduz num uma trajeto inesquecível para paragens mais ou menos incertas, com paisagens desconhecidas. Importante referir que Surma é a primeira artista portuguesa a ser confirmada para o South By Southwest (SXSW) – festival no qual se inspirou o Vodafone Mexefest – já para o próximo ano. Um pouco mais ao lado, a extensa fila no Teatro Tivoli denunciava que a sala onde decorria o concerto de Manel Cruz estaria igualmente lotada. Não nos surpreendeu, porque é impossível fazer uma história da música portuguesa sem referir o nome de Manel Cruz, que está de regresso aos palcos com novo material e arranjos diferentes. Responsável pelos portuenses Ornatos Violeta, tornou-se a voz de uma geração e, durante muitos anos, a esperança maior do rock cantado em português. Além do sucesso da banda, Manel Cruz sempre fez questão de colocar o seu talento ao serviço de múltiplos projetos: Pluto, Supernada ou Foge Foge Bandido – do qual fez parte do alinhamento do concerto apenas o tema «Estou Pronto» – mostram que é possível ser versátil sem nunca perder a identidade. Nos últimos dois anos, o artista, juntamente com Nico Tricot (teclados), Edu Silva (baixo) e António Serginho (percussão), apresentou Estação de Serviço, um projeto que entretanto evoluiu para Extensão de Serviço. Ao contrário do concerto de Surma, o público era maioritariamente mais velho, mas não menos coibido de gritar pelo portuense em plenos pulmões. “Na minha aldeia chamam-me maluco”, disse Manel Cruz antecipando o tema «Maluco», que esperemos ser incluído no novo disco a ser editado já no próximo ano. «Ainda Não Acabei» é o single que miúdos e graúdos já sabem de cor e mais ecoado na sala, mas enquanto não temos novo álbum, vamo-nos contentando por cantá-lo apenas nos concertos, porque isto ainda não acabou.

Uma das grandes curiosidades da primeira noite do Vodafone Mexefest aconteceu no Coliseu dos Recreios, desta vez sem filas. Em 2011 o público ficou completamente rendido ao som dos Destroyer e esse sucesso deve-se muito a canções como «Blue Eyes» e «Chinatown», do álbum Kaputt, onde a pop, o jazz, o soft rock e uma série de outras influências se casaram em perfeita harmonia. Anos depois, Poison Season veio apenas reforçar essa influência do jazz, indo mais longe, desde Frank Sinatra até à escritora brasileira Clarice Lispector, sem nunca ter perdido um apelo pop irresistível presente em temas como «Times Square». Mas o público que encheu a sala do Coliseu sabia que ia certa e maioritariamente ouvir temas do mais recente disco, Ken. Elegante e perverso, o último álbum de Dan Bejar desaparece nas sombras – tal como viria a acontecer com o disco Kaputt –, sintetizado, desprezível e recentemente paranóico. Dan continua a ser um dos compositores mais evocativos da sua geração e é difícil não fazer referência ao synth pop e ao jazz do suave dos anos 80 ao contextualizar a estética musical de Bejar – ele, que partilha o palco com mais sete artistas – e usa saxofones e teclados para expressar um particular tipo de desprezo, um sonho negro, um iene para o romance anacrónico. A acústica da sala nem sempre ajudou, os sons ora dispersos ora atropelados, mas os Destroyer regem-se entre guitarras e baixo, trompete e saxofone, piano, bateria e sintetizador sem grandes conversas ou interações. Ken é elegante e perverso, um verdadeiro reflexo de onde viemos e o retrato de um lugar inacreditável para onde vamos. É um disco conciso e escuro que pouco tem a ver com os seus antecessores, mas não é difícil encontrar nele referências claras ao post rock ou até mesmo à new wave, o uso predominante de caixas de ritmos e, especialmente, de teclados melódicos que marcam o compasso de todo o disco, tornando-o o mais próximo de um álbum pop que o grupo canadiano apresentou até ao momento. Os baixos ficam mais escuros e mais poderosos, tornando as letras De Bejar, sempre sarcásticas, mais cínicas do que nunca. No entanto, é através dos teclados e das guitarras claras e harmoniosas que este contraponto é gerado entre alguns sons e referências em tempos sombrios e sem alma, como em «La Regle du Jeu» ou noutros temas mais luminosos e doces como «In The Morning». Foi um bom concerto, mas é ainda complicado entrar nesta nova narração dos Destroyer e entender a sua legítima busca interior de momentos etéreos, quando a beleza instrumental é excluída do mapa de Ken, onde o objetivo nos pareceu claro: é preferível fazer apenas músicas curtas e bonitas. De preferência com boas colunas.

Com tantas atuações em locais tão distantes tornou-se difícil assistir a tudo o que desejávamos e as sobreposições de concertos obrigaram-nos a tomar partido, na esperança de não termos optado pela escolha errada. Perdemos o concerto de Hinds, escolhemos o concerto de Samuel Úria que, feliz para uns, infeliz para outros, foi um dos concertos com a maior fila da noite. Apesar de ter sido uma contratação de última hora, devido ao cancelamento do concerto da artista britânica Jessie Ware, o artista português provou que foi a escolha acertada para encher a sala Manoel de Oliveira, no Cinema São Jorge. Devia ser cada vez mais fácil decifrá-lo. Mas não é. Samuel Úria é rebuscado, cifrado e, para dificultar a tarefa, está cheio de conteúdo para desvendar. E é assim que dá corda a si próprio, e a nós: desafia-nos constantemente para o acompanharmos na mensagem e no prazer de a decifrar. No último disco, Carga de Ombro, ouvimos vários momentos aparentemente opostos. Porque esse é o som de todas as complexidades. O da força e da perseverança é o grito de ar nos pulmões que impele um amigo a sair do chão, que repreende a estupidez de saber misturar com opinião, e denuncia o ridículo do medo que leva ao silêncio. E depois, o sussurrar de um segredo confessado quando nos diz que quer estar pronto a dizer “não sei”, que quer ser apenas mais um, mais um homem, vulgar e comum. Mas no concerto do Vodafone Mexefest, o músico não veio sozinho e chamou duas das vozes e personalidades femininas que mais admira e respeita no panorama musical portuguêsAna Bacalhau, com quem cantou «Só Querer Buscar», tema incluído no disco de estreia a solo da artista; e Gisela João em «Lenço Enxuto», com quem ‘flirta’ artisticamente desde a estreia em disco da fadista. De Carga de Ombro escutou-se ainda o tema homónimo que deu título ao disco, «É Preciso que eu Diminua» e «Dou-me Corda», mas a noite não terminou sem que Samuel percorresse as canções mais representativas da sua discografia – «Espalha Brasas», «Não Arrastes O Meu Caixão» e «Teimoso».

Já derrotados pelo cansaço e dores nas pernas, tomámos rumo ao último e, talvez, o mais esperado concerto da noite no Coliseu dos Recreios: Orelha Negra. Hoje são considerados uma das melhores bandas portuguesas da atualidade, mas nem todos acreditariam no enorme sucesso deste grupo de hip hop sem vocalista. Felizmente, a melhor música só obedece a uma fórmula: talento e trabalho. João Gomes, Francisco Rebelo, Fred Ferreira, DJ Cruzfader e Sam The Kid provam isso mesmo, formando um quinteto de luxo, responsável por algum do melhor, mais arrojado e mais bem sucedido hip hop produzido em Portugal. Estrearam-se em 2010 com um disco homónimo. Nas primeiras fotografias o rosto de cada um dos elementos do grupo aparecia tapado por um disco. Percebemos a mensagem: aqui, só a música importa. Dois anos depois, outro homónimo, desta vez com um longo e extenso pano no palco a tapar inicialmente a banda. E, entretanto, temas como «A Cura» e «Throwback» já estavam colados aos ouvidos dos portugueses. Hip hop, soul e funk são os territórios mais evidentes da música dos Orelha Negra, mas há muito mais, há uma imensidão de preciosos detalhes que fazem a diferença na construção de uma música que quer mais do que entreter – quer construir narrativas, criar imagens quase cinematográficas na cabeça de quem ouve, preservar a memória da música feita pelos outros, no passado. Nada disto impede que esta música seja também um irresistível convite à dança. De facto, nos concertos dos Orelha Negra todo o corpo é convidado a embarcar numa viagem inesquecível e uma dessas viagens foi ontem à noite num Coliseu esgotado, como já se esperava. Os Orelha Negra trouxeram um novo disco na bagagem, editado em setembro passado, e também homónimo. «Ready» foi um dos novos temas que ouvimos no concerto de ontem e confirmamos: estamos prontos para continuar a ouvi-los. E para o segundo e último dia do Vodafone Mexefest.

 

Fotos: André Ferreira

La Bohemie.

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