Vodafone Mexefest | Segundo dia

Ponto de encontro: Coliseu dos Recreios. Uma visita ao Palácio da Independência, outra à Casa do Alentejo e, ainda, ao Palácio Foz. Uma passagem pela Estação do Rossio, um pulo ao Cine-Teatro Capitólio até chegarmos ao Cinema São Jorge. Já iremos à Garagem Epal, sem antes picarmos o ponto no Teatro Tivoli. É assim, de sala em sala, ruas atrás ruas, avenida acima, avenida abaixo, que se faz o segundo e último dia do Vodafone Mexefest. Os Kumpania Algazarra animam a cidade, enquanto os Panado fazem a festa no Vodafone BUS e os amantes do cinema e música assistem ao documentário “Charles Bradley: Soul Of América”. De baterias recarregadas, assistimos ao concerto de Luís Severo ao piano e Cigarettes After Sex a preto e branco. Os britânicos Everything Everything, o português Moullinex e ainda uma dupla que, curiosamente, junta as duas nacionalidades anteriores, Benjamim e Barnaby Keen.

 

A música nacional volta a ter um lugar de destaque no Vodafone Mexefest, que todos os anos leva a palco uma série de novos talentos da música portuguesa, bem como artistas de referência em géneros tão distintos como a pop, o rock, o hip hop, a eletrónica ou o fado. «Amor e Verdade». Foi assim que Luís Severo começou uma viagem emocional pela cidade de Lisboa sentado ao piano, baixinho mas imensamente talentoso. Depois de ter editado, em 2015, o brilhante álbum Cara d’Anjo, regressa agora aos palcos com um disco em nome próprio, concentrando-se mais no piano do que nos teclados. Com postura de homem solitário, o compositor e letrista em ascensão tocou ainda «Cabeça de Vento», «Lamento» e «Escola» antes de deixar o piano, agarrar a guitarra acústica e lançar-se aos anteriores «Vida de Escorpião» e «Cara d’Anjo», repleta de teclados exuberantes a lembrar o génio desaparecido de Elliot Smith na sua melhor forma. Com a sala do Teatro Tivoli de olhos postos em Luís Severo, o cantautor pop, mostrou-nos um trabalho mais modular e com uma maior elegância de arranjos que muito a pena ouvir.

Dizem que é o melhor cigarro da vida, o que até pode fazer sentido porque Greg Gonzalez escreve canções sobre o amor moderno que instigam pequenas catarses de sinceridade a cada tema. Mas não existam dúvidas, as músicas dos Cigarettes After Sex são muito parecidas com os seus relacionamentos e estão cheias de contradições. Depois de temas tão cativantes como «Nothing’s Gonna Hurt You Baby» ou «Dreaming Of You» do EP I, editado em 2012, a banda norte-americana editou há poucos meses o primeiro longa duração em nome próprio. Na rua, a fila para assistir ao concerto no Coliseu dos Recreios tomava proporções inimagináveis. Na arena, Greg sussurra-nos ao ouvido confissões, relatos e questões sobre as relações contemporâneas, revelando padrões de comportamento em «Sunsetz», agressividade transformada em poesia na «Flash» e declarações de afeto em «Sweet», projeções de insegurança no tema «John Wayne» e um convite à intimidade em «Truly». As canções são lentas, com guitarras longadas, baterias distantes e um baixo discreto, como o dream pop elegante e escuro da tão conhecida «Affection» nos habituou. Mas o tema de abertura do novo disco, «Apocalypse», mostrou-nos desde o início como a banda está preparada para apresentar uma sonoridade mais sólida, entre a slow pop e o rock alternativo, com ecos de shoegaze e temas que oferecem inúmeras variações melódicas e uma base mais rítmica em que relação ao som que Cigarettes After Sex nos haviam habituado. Greg Gonzalez canta, através de uma lírica direta e despojada de qualquer ambivalência, os altos e baixos da sua vida amorosa. E aquilo que podia ser um álbum aborrecido a puxar o tal melhor cigarro da vida, funciona. A música é mais centrada na criação de texturas e de um mood determinado tornando a viagem suave, agradável ao ouvido mesmo em momentos mais monótonos. A repetição de padrões rítmicos complementam e suportam o tipo de histórias de amor ligeiras, despreocupadas e, de algum modo, ingénuas que Gonzalez nos conta. Um ir e vir de mulheres que passam pela sua vida e pela sua cama que acabam por nos embarcar nas relações amorosas e contemporâneas que são os Cigarettes After Sex.

De Manchester para o Coliseu dos Recreios, muitas novidades na bagagem e a comemorar quase dez anos de carreira, os ambiciosos e talentosos Everything Everything foram uma das grandes atenções do último dia do Vodafone Mexefest. O quarteto britânico sempre foi uma banda ávida, com vontade de produzir um som futurista, em sintonia com um mundo em mudança. Mas, se nos primeiros tempos a vida de estrada exigia da banda um som mais punk e direto, não demorou muito até que Jonathan Higgs, Jeremy Pritchard, Michael Spearman e Alex Robertshaw concretizassem essa ambição, encontrando uma linguagem muito própria, onde o indie rock, o R&B, o dream pop e até o rock progressivo são influências que não se atropelam. Depois de três álbuns, a banda acaba de lançar Fever Dream, um disco desconcertante, com letras aguçadas e sintetizadores usados com a mestria de sempre. Se Man Alive fora um trabalho tão desordenado e caótico, em Arc começou-se a ver alguma coerência, no qual as canções eram esmagadoras à base de uma instrumentalização explosiva governada pela descontrolada voz de Jonathan Higgs. Não perdendo a fé numa banda na qual queremos acreditar, o disco Get To Heaven conquistou-nos por provarem que são capazes de conjugar com acerto tanto influências pop, como disco e eletrónicas em canções que funcionam como um veículo perfeito para letras com alta carga de crítica social e reivindicativas, criando pelo caminho um doce e ligeiro contraste entre forma e conteúdo. Agora, Fever Dream supera-nos. Os Everything Everything procuraram assentar a sua posição como banda de art pop vindicativo de primeiro nível, misturando a intensidade melódica com a abstração mais relaxada para criar um corpo sonoro, no qual se viaja entre a escuridão e a raiva, sentimentos presentes em quase todos os temas com esse vermelho sangrento que protagoniza a capa do álbum, um retrato particular do desastre para o qual o ser humano está destinado. Higgs repete a jogada do disco anterior, debitando palavras amargas acompanhadas de versos que se repetem no final de cada estrofe e temas viscosos. «Night Of The Long Knives» tem uma introdução suave de teclados que esboçam um remanso de paz, já a «Can’t Do It» é uma canção que não oferece uma letra tão transcendente e mantém o ritmo com uma melodia muito aditiva. Em «Desire» as guitarras são cristalinas e as back vocals cobrem na perfeição a voz de Jonathan, e no tema «Big Game» a bateria e a voz encarregam-se de guiar uma sonoridade de fundo um pouco melancólica, com sintetizadores que aparecem aqui e ali. Ao fim que quatro álbuns, os Everything Everything parecem ter encontrado a receita perfeita: guitarras com apontamentos violentos, contraste entre a potência dos estribilhos e a sobriedade das estrofes, e um vocalista a conseguir controlar os falsetes ecoando versos rápidos e intensos.

Já se sabe que Benjamim é um dos songwriters de maior talento na nova música portuguesa. O disco Auto Radio, editado em 2015, é a melhor prova disso – canções carregadas da história do próprio Luís Nunes, uma história também nossa, com influências que vão desde o conjunto Duo Ouro Negro até aos incontornáveis Beach Boys. No tempo em que morava em Londres e ainda assinava como Walter Benjamin, o português conheceu Barnaby Keen, músico britânico com o qual partilhou a paixão pelo disco Construção de Chico Buarque. Esta partilha resultou no disco 1986, editado este ano. Mas isso também já toda a gente sabe. Os dois músicos equilibram a capacidade criativa com interpretações certeiras, com a bossa nova no horizonte, mas sem esquecer as influências pop anglo-saxónicas dos anos 80. Em palco, Benjamim parece que está pronto para ir sair para o Lux e Barnaby que acabou de sair de uma grande surfada ali no Guincho, mas a amizade e companheirismo destes dois amigos é visível e as diferenças entre ambos encontram uma ligação equilibrada e harmoniosa, como em «Warm Blood», tema no qual nos apaixonamos facilmente pelo groove intenso e, claro, pela voz de Barnaby. A belíssima «Terra Firme» relembra-nos o anterior Auto Radio, mas rapidamente as diferenças ressaltam aos ouvidos com o jazz suave, o contrabaixo e o piano a abraçar uma das músicas mais populares do álbum, entre o ritmo exótico que embarca numa viagem nostálgica num dia ensolarado. Talvez para o Keen ir surfar. A tropicalista «Dança Com Os Tubarões» não nos dá outra hipótese senão dançar e na envolvente «All I Want» Benjamim canta, encanta e envolve-nos com a sua voz suave e profunda, quase como um sussurro. O que não se sabe, para quem não não esteve lá, é que foi um concerto muito divertido, cheio de amigos a beber “jolas” numa garagem onde não cabia mais um único carro. Ou pessoa. E isso foi maravilhoso.

No andamento desta grande receção, seguimos rumo para a grande festa de encerramento no Coliseu dos Recreios. É difícil falar de música eletrónica em Portugal sem referir o nome de Moullinex, o alter ego do viseense Luís Clara Gomes. Assume-se, cada vez mais, como umas das mentes mais irrequietas e criativas do panorama musical português, convidando vários géneros musicais para a sua música: soul, funk, disco, garage rock e até MPB, tudo serve para enriquecer a eletrónica de Moullinex. Em nome próprio, e depois de dois discos muito aclamados, Flora (2012) e Elsewhere (2015), Moullinex regressa agora com Hypersex, um registo que presta homenagem à cultura de dança, uma celebração da vida e muito forrobodó. E nada disso faltou no concerto de ontem à noite: ele foi ginga, ele foi palmas, ele foi assobios, ele foi ananases a voar para o público, foi ele próprio a saltar para o meio do público, ele foi a loucura total numa arena que mais parecia um circo. Com mestre-de-cerimónias e tudo. Mas em bom. Se o álbum anterior foi muito mais solitário e autocrítico, neste Moullinex aproveitou a ocasião e convidou os amigos, como Da Chick e Best Youth que não faltaram à festa. No lado esquerdo da plateia, uma tela de croma convidava o público a dançar e a aparecer projetado atrás da banda que tocou temas como «Open House», «Love Love Love» e «Work It Out» levando o Coliseu de Lisboa ao rubro, despedindo-se em grande do festival Vodafone Mexefest.

 

Fotos: André Ferreira

La Bohemie.

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