Vodafone Mexefest terminou com muita chuva e calor humano.

Já diz o ditado «Mexefest molhado, Mexefest abençoado». O segundo e último dia do Festival chegou ao fim e, apesar da intensa chuva que se fez sentir, cerca de 15.000 pessoas trocaram o sofá pelas ruas de Lisboa para ouvir o que de melhor se anda a fazer na cena musical. Gallant foi uma estreia em Portugal, Elza Soares regressou a Lisboa para mostrar, mais uma vez, por que é considerada uma Rainha. Kevin Morby e Whitney continuam a partir muitos corações. Mas em bom.

 

 

Estreias e Regressos

 

Foto: Miguel L. Costa

Gallant é, provavelmente, um dos nomes mais falados do momento e é já considerado um fenómeno. O público que encheu o Coliseu dos Recreios que o diga. Pela primeira vez em Portugal, o jovem músico norte-americano apresenta-se como o futuro da música soul e R&B. Com traços finos de contemporaneidade e R&B com vocais impecáveis, à música de Gallant cola-se uma voz angelical imensa, um canto sussurrado carregado de falsetes incríveis. Estreou-se o ano passado com o single «Weight In Gold», conquistando de imediato os melhores elogios. Este ano veio o debut em formato Lp, Ology, considerado desde já por muitos como um dos discos do ano. Temas como «Weight in Gold» e «Bourbon» ficaram marcados  nesta edição do Vodafone Mexefest.

Foto: Miguel L. Costa

Há muito de irresistível na música de Kevin Morby. A par de artistas como Kurt Vile, jovens revolucionários e talentosos que não renegam a influência de gigantes da indie-folk norte-americana, Kevin Morby tem uma legião de fãs bastante sólida e fiel. A Estação Ferroviária do Rossio encheu de tal forma, que me admira ter conseguido ficar na primeira fila. «Dorothy» foi o tema que abriu o concerto e Morby surge vestido tal e qual como no videoclip, mas foram temas como «Destroyer», «Harlem River» e «I Have Been To The Mountain» que deixaram, o público ao rubro. O artista já tem tem três discos: Harlem River (2013), Still Life (2014) e Singing Saw, editado este ano. O tridente vem recheado de uma fusão imaculada de folk, country, pop e rock, perfumada por uma voz e estilo que lembra gente como Cohen ou Bob Dylan. Em Singin Saw, Morby enfrenta a realidade da verdadeira beleza e exige um equilíbrio que inclui os nossos lados mais obscuros. Um registo de dualidade que marca mais uma etapa de crescimento para o jovem compositor, dotado de um rosto amável e uma mente complicada. O álbum Singing Saw é um instrumento que cria sons etéreos, mas também é uma ferramenta: básica e prática, temível, e até mesmo destrutiva, onde podemos entender a música como algo mais poderoso do que apenas o seu som delicado e convidativo. Com uma infinidade de instrumentação como guitarra, baixo, bateria e teclado, as canções ficam completas com o piano e teclado que sustentam o som de piano coeso, servindo como uma pedra basilar a todo o disco. No final, Kevin Morby cumpre a promessa que muitos ouviram nos seus dois primeiros álbuns, resultado de um esforço bem realizado de composições e letras. Músicas que reflectem a libertação que vem de acolher a mudança e abraçar a dualidade numa visão inteiramente nova para ver e ouvir. E dançar.

Foto: Miguel L. Costa

Ela quer cantar, deixem-na cantar. Elza Soares é uma lenda viva da música brasileira e foi, sem dúvida alguma, a rainha da noite. Depois de ter actuado no Porto e em Aveiro, foi a vez de Lisboa receber esta grande mulher que, apesar de ter 79 anos, lançou no ano passado, pela primeira vez, um disco de inéditos aclamado de forma apoteótica. O registo intitulado A Mulher do Fim do Mundo retrata a vida e as lutas pessoais de Elza Soares. Não é difícil de perceber que a sua história é trágica, imensa de perdas, violência e pobreza. No entanto, através da música foi exorcizando muitos dos seus fantasmas, dando sempre voz aos direitos dos negros, das mulheres e da comunidade homossexual. Com a “A Mulher do Fim do Mundo”, Soares condensa sessenta anos de carreira e toda a sua criatividade e competência inovadora, experimentando jazz, soul, samba, funk e muitos outros géneros. Surge sentada na mítica poltrona, qual diva, vestida de negro, sustentando a sua enorme cabeleira roxa. Rainha sambista, filha da favela, Elza Soares fala tudo o que quer, fala tudo o que sente. «O disco tem samba feito distorção eléctrica, tem gravilha sonora envolvendo baixos electrónicos, tem inquietação moderna agitando formas perenes, tem a voz de Elza, maturada pelo tempo, a atravessar com gosto e convicção esse novo mundo sónico». Ao espectáculo da noite juntaram-se alguns dos mais irreverentes e talentosos músicos brasileiros: Kiko Dinucci (guitarra), Rodrigo Campos (cavaquinho), Marcelo Cabral (baixo), Romulo Fróes (composição), Felipe Roseno (percussão), Celso Yes e Guilherme Kastrup (produção e bateria). “Obrigada, vocês são altamente fixes!”, disse-nos Elza Soares. Se nós somos fixes, que será Elza? Rainha! O Coliseu dos Recreios encheu, o público eufórico cantou, dançou, assobiou e aplaudiu do início ao fim do espectáculo exuberante. E esse, ficará para a História – de Elza Soares e do Mexefest.

Foto: João de Sousa

Whitney não é apenas o nome que o guitarrista Max Kakacek e o cantor-baterista Julien Ehrlich resolveram dar ao seu projeto musical. É, igualmente, uma espécie de terceiro elemento, uma identidade imaginária mas que pesa para a inspiração do par de Chicago. Com a sala do Teatro Tivoli lotada, o público esperava impaciente pela dupla de amigos que interagiram constantemente connosco e nos fez rir ao longo do concerto. Num palco despido e com uma imagem de um magnífico lusco-fusco de fundo, o ambiente denunciava de imediato a a simples, delicada, inteligente e emotiva sonoridade do concerto. O disco de estreia destes dois músicos carrega uma forte influência das décadas de 70/80, uma carga excelente de country, rock, folk e, principalmente, pop e é já uma das melhores edições de 2016, resultado de muitas horas de partilha, do qual as composições acabam por sonora e narrativamente revelarem relações que ambos os artistas coincidente e simultaneamente terminaram. As letras agri-doces e as melodias amenas chegam ao ouvido sem alarde e contagiam-nos desde o início. As melodias dos Whitney procuram furtar aos anos dourados do rock o som fino e clássico, mas transporta-o para os nossos dias e acrescenta-lhe uma contemporaneidade esparsa de arranjos. O disco de estreia Light Upon the Lake é um belíssimo aglomerado de canções e o single de estreia, «No Woman», maravilha acústica remete-nos para o universo dos Beirut. A mestria da banda em criar faixas descomplicadas e grudentas fica evidente. Do clima havaiano de «On My Own», passando pela instrumental «Red Moon», viajando pelo indie rock de «No Matter Where We Go», parando no melancolia de «The Falls» e saboreando o delicioso refrão de «Follow», Whitney recupera o que há de mais doce, técnico e simples no pop de 70, sabendo misturar ao cenário indie moderno. Light Upon The Lake trata crises pessoais pelas quais todos nós passamos em determinados momentos da vida, discute o típico cenário de alguém a tentar encontrar-se no meio de mudanças e transformações da vida, sempre envolvido numa atmosfera introspectiva, num canto quase sussurrado.

Foto: João de Sousa

A terminar o meu roteiro do segundo e último dia do Vodafone Mexefest, foi tempo de ver a grande revelação desta edição do Mexefest. Os Digable Planets regressaram aos palcos e actuaram ontem à noite no Cinema São Jorge. Apesar dos lugares sentados, o público levantou-se para dançar como se numa discoteca estivesse, não fosse o grupo uma referência da era dourada do hip-hop. No ar, muito calor humano, rap e batidas. O trio de rappers nova-iorquino constituído por Butterfly, Ladybug e Doodlebug espantaram com o single «Rebirth Of Slick (Cool Like Dat)», um clássico jazz-rap que ainda figura como marca sonora do projecto. Viria a incluir o Lp debut de 1993, Reachin (A New Refutation of Time and Space), um disco inovador, recheado de samples com música de gigantes como Art Blakey, Sonny Rollins ou Curtis Mayfield. As suas músicas reflectiam uma vida nova-iorquina que não glorificava, mas respeitava a vida de rua. Pelo meio, o contraste com referências ao bom jazz de domingo, algum suave flirt com ideias filosóficas, um fascínio pelo mundo quotidiano e sensível e, até, uma passagem por questões sociais. Embalados pelo êxito do álbum de estreia, assombraram ainda mais com um segundo lançamento, mais orgânico nos arranjos mas sempre a misturar o jazz com o rap, chamado Blowout Comb (1994). Entretanto, todos os elementos seguiram carreiras em nome próprio, reunindo-se em 2005 para uma compilação intitulada Beyond the Spectrum: The Creamy Spy Chronicles. Daí para cá inúmeros concertos confirmam o génio e a intemporalidade do som dos Digable Planets.

Foto: Miguel L. Costa

Depois de Jorge Palma ter protagonizado o primeiro Concerto Surpresa deste Vodafone Mexefest, António Zambujo foi o artista convidado de ontem à noite. O espectáculo realizou-se às 21h00, no Largo São Domingos e aconteceu um mês depois de o fadista ter lançado o seu sétimo disco de estúdio: Até Pensei que Fosse Minha, onde interpreta canções de Chico Buarque. Foram essas as canções predominantes deste concerto, onde não faltaram igualmente alguns dos temas mais conhecidos de António Zambujo. Como um relógio que toca à hora marcada, quando o Vodafone Cuckoo soa anuncia-se a chegada de uma performance exclusiva. O quinteto lisboeta Capitão Fausto actuou ontem na varanda do Coliseu dos Recreios, mesmo debaixo de chuva, atuação única, pensada especificamente para o Vodafone Cuckoo e adaptada ao local inédito onde se realizou. Os Kumpania Algazarra continuaram a animar as ruas e o público do Cinema São Jorge quando a chuva não dava tréguas. No sotão do Teatro Tivoli, a finalizar a noite, foi a vez dos Irmãos Makossa animarem os muitos resistentes do Festival. Amigos, pesquisadores da música africana dos anos 70, e com as suas influências, decidiram cruzar as suas preferências e mostrar os seus conhecimentos ao público. Makossa Brothers são uma espécie de história de uma viagem através da África, e como isso influenciou o mundo musical, portanto esta viagem é contada através da música retirada dos sons dos vinis e CDs que enchem os seus casos. Combinada com a paixão pelos ritmos africanos, a cultura africana é também um dos motivos que nos fazem tocar.

 

 

Fotos: João de Sousa

          Miguel L. Costa

La Bohemie.

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